— Me conta. Como foi lá? Ela dizia já sem aquela animação dos telefonemas, uma voz de meio tom abaixo.
— Foi legal. Você sabe como é. E eu só pensava em abraçar forte e ter certeza que tudo mudaria ali.
— Você não vai jantar? A comida aqui é tão gostosa. Vai... vamos dividir alguma coisa...
— Não. Estou realmente sem fome. Por que eu já sabia que o encontro seria assim? Durante toda a viagem quis me convencer de que estava errado. Ela ligou. Disse que precisa, que não entende, que faz falta. Caminhamos duas quadras cantando juntos o que parecia ser a nossa canção. Abraçados esquecemos o frio e as pessoas. Gritamos cada palavra mais alto, cada nota mais alto. Ao me despedir senti que não poderia deixar as coisas assim, sem ponto final. Ela deu um passo sem perceber e me olhou nos olhos.
— Ahhh... não vou conseguir ir embora assim. Posso te beijar?
— Pode. Com timbre de talvez, com som de eu queria, eu quero, não sei.
O beijo foi longo e os ruídos da noite foram a trilha dos pensamentos, das perguntas e do carinho de dois mundos tão distantes naquela chuva fina.
O casal que a vida mais amou, escolhido pela chuva, pela canção e pela distância, morreu quando aquele beijo acabou.
E depois tudo se desfez em um silêncio eterno.
E ninguém mais dormiu em paz naquela rua.
quarta-feira, maio 24, 2006
quinta-feira, maio 18, 2006
Walking
O som está alto na sala. A senhora do outro lado da janela passa as roupas com certa delicadeza. Olhando todos os prédios só consigo pensar na dificuldade de mudar hábitos tão antigos que acabam sendo parte do que fui até aqui. A espera de resposta me fez entender bem o que pensa quem está no corredor da morte.
Hoje não li o jornal. Os discos estão um pouco chatos, a velocidade atormenta demais aos ansiosos. Por um momento sinto poder tocar o abismo e não entender sentido algum. Nessa hora escuto um trompete perdido gritando frases sem melodia, frases a esmo. Quem joga uma garrafa ao mar espera resposta?
Não conheço o mundo do lado de lá, só imagino. Vejo gestos leves, imagens de afeto, carinho. Ainda é o mundo de lá. Longe demais da realidade daqui. Penso em pontes. Alguém poderia mostrar uma ponte, um avião, uma forma de comunicação qualquer com a outra metade do sonho?
A carta escrita "Sol" disse prever um encontro. Águas de hemisférios totalmente diferentes formariam o desenho do mar? Talvez ela passe por aqui apressada querendo um beijo de saudade.
Hoje escrevi uma nova canção e ela me disse: Esperança.
Hoje não li o jornal. Os discos estão um pouco chatos, a velocidade atormenta demais aos ansiosos. Por um momento sinto poder tocar o abismo e não entender sentido algum. Nessa hora escuto um trompete perdido gritando frases sem melodia, frases a esmo. Quem joga uma garrafa ao mar espera resposta?
Não conheço o mundo do lado de lá, só imagino. Vejo gestos leves, imagens de afeto, carinho. Ainda é o mundo de lá. Longe demais da realidade daqui. Penso em pontes. Alguém poderia mostrar uma ponte, um avião, uma forma de comunicação qualquer com a outra metade do sonho?
A carta escrita "Sol" disse prever um encontro. Águas de hemisférios totalmente diferentes formariam o desenho do mar? Talvez ela passe por aqui apressada querendo um beijo de saudade.
Hoje escrevi uma nova canção e ela me disse: Esperança.
terça-feira, maio 16, 2006
Diálogos em AM
1280 KHz:
- Então a senhora já pode deixar o telefone para quem estiver interessado e de coração aberto em todo Brasil...
1400 KHz:
- Sua generosidade chamará a bondade alheia em seu socorro!!!
620 KHz:
- Em Brasília dezenove horas. Você está ouvindo...
1520 KHz:
- Que o satanás deixe esse corpo em nome da glória e do espírito...
750 KHz:
- O time do Inter não pode ficar jogando assim no campo do adversário. O Abel não viu ainda...
1110 KHz:
- "Rimas fáceis, calafrios, fura o dedo e faz um pacto comigo..."
quinta-feira, maio 11, 2006
Inverno em Isabela
"talvez não fosse, se fosse mais doce...quem sabe"
Ela é a frase de efeito. O sonho da noite passada. Na hora parecia real, uma vitória de vida real. Lembro de sonhar e sentir a felicidade daquele momento em que acreditei ter certeza de não ser um sonho. Ela sorria exatamente com aquela roupa. A blusa era linda mas o sorriso era mais. Sorriso de fotografia.
Não sei onde mora, duvido de quem anda, esqueço o sobrenome. Pergunto as horas? Compro um disco? Conto uma história? A cada novidade digo o seu nome quando chamo de amor. Vejo na rua, na cama, nas poltronas do Municipal. Faço Terapia? O sol da manhã queimaria melhor. O cigarro na janela seria um samba de trilha sonora.
Quero ser amigo dos amigos. O pai dos filhos. Vejo endereços? Tento telefones? Impaciência no redial. A mesma canção por horas. Talvez nunca chegasse ao fim. Um café aqui na frente. Troquei na letra "Marieta" por "Isabela". Pensei o que inventaria nos finais de semana. A guitarra faria mais sentido, as pessoas fariam muito mais sentido. Escrevo uma carta?
19 e 24. Urca. Carro. Trabalho. Roupas coloridas. Lencóis. Discos. Violão. Sacolas de supermercado. Manteiga. Almoço. Sonhos velhos, calor de Janeiro. Filme de sábado. A mãe ligando. Roupas no varal. Nada de muito novo. Nada de novo.
Fumo outro cigarro?
Quanto antes melhor. Buenos Aires com violinos de segunda fileira. Tédio e garoa fina de maio. Why does it always rain on me? Ela canta um pedaçinho pra passar o tempo. Pensa que talvez seja só pouco tempo. Tento dormir mais cedo? Tudo é só sonho. Não existe lá, só aqui. Ou até existe e ela não acredita. Não sabe talvez.
Queria te contar as horas. Queria voltar pra casa de um dia cansado. De uma sexta-feira de tempo contado. Mostrar as frases bonitas nas passagens de acordes dissonantes. Comprar o pão de qualquer feriado. Jantar o vinho de qualquer quinta-feira igual. Testo a paciência?
Grito o nome? Invento mentiras?
Talvez não seja suficiente.
sábado, maio 06, 2006
05:00 ou Urgência
"Eu não quero ser viável. Essa bandeira não é minha, mas acho que sou viável. Não preciso de porra nenhuma que eu não tenha - minha urgência é muito maior que a minha carência."
"Muita gente fica discutindo a vida como se fosse uma coisa passível de discussão. Como se a doença que se pega fosse passível de discussão. Como se o fim de semana que chega fosse passível de discussão."
segunda-feira, maio 01, 2006
Mensagens Instantâneas
Manoel diz:
eu quero ter feito uns 10 discos
Manoel diz:
escrito uns 30 livros
Manoel diz:
viajado uns 60 países
Manoel diz:
ter sido casado por 80 anos
Manoel diz:
tido 2 filhos
Manoel diz:
disputado algum esporte
Manoel diz:
que seria impossível
Manoel diz:
pra alguém não profissional
Manoel diz:
escrito coluna em jornal
Manoel diz:
quem sabe até ter sido deputado federal
Manoel diz:
depois disso tudo
Manoel diz:
e mais um monte de outras coisas
Manoel diz:
eu posso ir
Manoel diz:
sem perder a ternura, é claro.
quinta-feira, abril 27, 2006
Supermercados da vida
Alto-falantes: "Abismo que cavaste com teus pés..."
Ele: Melhor hora pra vir ao supermercado!
Eu: .......
Ele: É. Final de expediente.
Eu: Mas fecha às 22:00.
Ele: Mas não era às 20:00?
Eu: Não sei.
Ele: Eu lembro. Era às 20:00. Agora fecha às 22:00?
Eu: Fecha.
Ele: rárárárárárá
Eu: .... (olhando pra qualquer lugar)
Ele: Levando umas besteiras. Não dá nem 5 reais.
Eu: ..........
Ele: Pra comemorar o meu final de aniversário.
Eu: ..........
Ele: Agora eu não conto anos a mais. Passei a contar anos a menos.
Ele: rárárárárárá
Eu: Pois é.
Eu: ........
terça-feira, abril 25, 2006
compacto simples - 78 rotações
Linda
Compositores: (Clower Curtis e Manoel Magalhães)
Como vai?
Talvez você hoje entenda
o que eu quis dizer.
Não vamos brigar por
motivos banais,
problemas normais,
entenda o que eu posso te dar:
um sonho sempre igual.
A vida real é tudo que eu sei cantar.
Assim
talvez mentindo
eu pareça um cantor de blues
dizendo baixinho no ouvido
o refrão da velha canção
que canto sempre quando quero voltar
e recomeçar...
Linda
nada vai mudar nós dois
mesmo sem canção
depois a gente pode dançar
Entenda
que um pouco da minha vida
fica em cada despedida
nada dói mais que te ver chorar
E assim
talvez dormindo
você ouça eu cantar o tango
que fiz partindo
mas não se preocupe que vou voltar
com o mundo nas mãos
e rosas vermelhas para te dar
quando a nossa canção tocar...
Linda
nada vai mudar nós dois
mesmo sem refrão
depois a gente pode cantar
Entenda
que em cada despedida
fica um pouco da minha vida
nada dói mais que te ver chorar
Assimmmmmmm....
domingo, abril 23, 2006
de publicidade e vícios
O mundo é uma soma doente dos dois. A menina do vestido bonito. O garoto do nariz redondo. O cigarro, a cerveja, a cocaína. A música pop, o samba, as putas.
De publicidade a vícios.
Você quer a melhor música, a melhor mulher, o maior dinheiro. E talvez até faça sentido, de alguma forma é claro. A maioria das pessoas come merda. Só que merda não só alimenta como dá prazer. Publicitário ou não.
95% do Jornalismo pode ser inútil e é. 95% da Política pode ser útil e é.
Os dois têm um que de vício, Publicitário é claro.
Quem vai ao Teatro? Eu não conheço quem paga aquele monte de notas de 1 real pra ir assistir a Orquestra Sinfônica Petrobrás. A música erudita ganhou um que de revolução na publicidade, viciante é claro.
É natural que o tempo não deixe pensar, muito menos o trabalho. Esse sim: não pode ter nada de vício nem publicidade, mas talvez seja o filho da soma dos dois. O filho gordo, com olheiras, que trepa quando dá e viaja nas férias.
Some e adicione a isso: Sexo, preconceito, depressão, irritação, chefes, humilhados, aproveitadores e aquela pessoa que você conhece que goza quando é aproveitada.
Isso eu não entendo ainda: come caro, veste mal e caro, viaja caro, é gorda caro, inculta caro, triste e infeliz. Não por pagar caro, mas por só encontrar o prazer onde entende como dor. Tem gente que chora quando dói. Mas é melhor doer do que o tédio de não sentir nada.
É... queridos...
Se não existe vida após a morte, estamos vivendo de publicidade e vícios.
De publicidade a vícios.
Você quer a melhor música, a melhor mulher, o maior dinheiro. E talvez até faça sentido, de alguma forma é claro. A maioria das pessoas come merda. Só que merda não só alimenta como dá prazer. Publicitário ou não.
95% do Jornalismo pode ser inútil e é. 95% da Política pode ser útil e é.
Os dois têm um que de vício, Publicitário é claro.
Quem vai ao Teatro? Eu não conheço quem paga aquele monte de notas de 1 real pra ir assistir a Orquestra Sinfônica Petrobrás. A música erudita ganhou um que de revolução na publicidade, viciante é claro.
É natural que o tempo não deixe pensar, muito menos o trabalho. Esse sim: não pode ter nada de vício nem publicidade, mas talvez seja o filho da soma dos dois. O filho gordo, com olheiras, que trepa quando dá e viaja nas férias.
Some e adicione a isso: Sexo, preconceito, depressão, irritação, chefes, humilhados, aproveitadores e aquela pessoa que você conhece que goza quando é aproveitada.
Isso eu não entendo ainda: come caro, veste mal e caro, viaja caro, é gorda caro, inculta caro, triste e infeliz. Não por pagar caro, mas por só encontrar o prazer onde entende como dor. Tem gente que chora quando dói. Mas é melhor doer do que o tédio de não sentir nada.
É... queridos...
Se não existe vida após a morte, estamos vivendo de publicidade e vícios.
quarta-feira, abril 19, 2006
diversões no interior
Acompanho com curiosidade a evolução das "formas de entretenimento noturno jovem" na minha querida cidade: Itaperuna, interior do estado do Rio de Janeiro.
Comecei a tentar entender como tudo funcionava quando as pessoas resolveram que o melhor lugar pra se encontrar, beber e conversar era um posto de gasolina da Texaco. Realmente uma coisa impressionante: Todos bebendo e fumando por entre as bombas de gasolina e óleo diesel. Junto com alguns amigos até registrei esse momento histórico em vídeo. Tomara que essas fitas ainda existam.
Depois do posto da Texaco, resolveram que o legal era um Campo de Futebol Society. Um lugar que um bicheiro transformou de mato em 'campo de peladas de final de semana com boteco do lado'. As pessoas colocavam suas melhores roupas no final de semana e se encontravam lá. Tudo isso ao som de um camaradinha com um teclado provavelmente da Casio. Beira o inacreditável, mas espere: ainda piora!
Nesse feriado descobri pessoalmente a boa da vez: Um bar na beira da estrada, sendo que o mais importante é: do ladinho do cemitério. Não duvido nada se o próximo passo não é o próprio cemitério. Agora é um misto medonho de boate e bar, com música de qualidade duvidosa, tudo isso na companhia das almas penadas. Não aguentei trinta minutos no tal lugar.
Dessa vez desisti completamente de encontrar algum sentido.
O pior é que falando assim, parece brincadeira.
Mas não é, vai até lá e vê.
Comecei a tentar entender como tudo funcionava quando as pessoas resolveram que o melhor lugar pra se encontrar, beber e conversar era um posto de gasolina da Texaco. Realmente uma coisa impressionante: Todos bebendo e fumando por entre as bombas de gasolina e óleo diesel. Junto com alguns amigos até registrei esse momento histórico em vídeo. Tomara que essas fitas ainda existam.
Depois do posto da Texaco, resolveram que o legal era um Campo de Futebol Society. Um lugar que um bicheiro transformou de mato em 'campo de peladas de final de semana com boteco do lado'. As pessoas colocavam suas melhores roupas no final de semana e se encontravam lá. Tudo isso ao som de um camaradinha com um teclado provavelmente da Casio. Beira o inacreditável, mas espere: ainda piora!
Nesse feriado descobri pessoalmente a boa da vez: Um bar na beira da estrada, sendo que o mais importante é: do ladinho do cemitério. Não duvido nada se o próximo passo não é o próprio cemitério. Agora é um misto medonho de boate e bar, com música de qualidade duvidosa, tudo isso na companhia das almas penadas. Não aguentei trinta minutos no tal lugar.
Dessa vez desisti completamente de encontrar algum sentido.
O pior é que falando assim, parece brincadeira.
Mas não é, vai até lá e vê.
quarta-feira, abril 12, 2006
segunda-feira, abril 10, 2006
Suzane Richthofen
Sempre tive fascínio por esses casos de loucura-psicose-pop. Por irresponsabilidades infantis que acabam gerando casos policiais históricos. As pessoas que cometem esses crimes acreditam cegamente que a possibilidade de alguém descobrir a verdade não é tão grande assim, acho que talvez por superestimar sua inteligência.
Nunca um caso desse ficou por tanto tempo na minha cabeça como o de Suzane Richthofen e dos irmãos Cravinhos. Tenho um interesse absurdo nos três personagens: Suzane - Menina bonita, rica, estudante de Direito. Daniel - O típico namorado que uma menina rica rebelde costuma ter. Chirstian - A grande questão da história: Fez por amor ao irmão, por dinheiro ou por ambos?
Li nessa última semana que Suzane (como uma estratégia de sua defesa) daria entrevista ao Fantástico. A intenção de seu advogado é a de mudar a visão da opinião pública em relação a ela (uma vez que o crime irá a jure) e jogar a culpa para os irmãos Cravinhos.
Não assisti a entrevista ainda, mas no jornal O Globo de hoje uma matéria esclarece que a estratégia foi exagerada, chegando a ponto da equipe do programa gravar em off ordens do advogado como: "Chora!". Todo um clima bizarro foi criado para caracterizar que Suzane era obrigada por Daniel a se drogar e cometer loucuras como foi o assassinato de seus pais.
Além disso outros dois processos correm na justiça: O da família da mãe de Suzane junto com seu irmão Andres pleiteando que ela seja deserdada. E um processo de Suzane com a intenção de assumir os bens de seus pais alegando "descaso" e "irresponsabilidade" por parte do irmão na administração da herança.
Por tudo que li e asssti sobre o caso, acho que Suzane planejou tudo. A idéia provavelmente partiu dela. Mas diante de toda a complexidade e relevância da história em si, isso acaba importando menos. Tenho certeza que passado o julgamento a minha vontade de entrevistar Suzane na prisão só irá crescer.
Até o fim da vida, escrevo essa história.
Nunca um caso desse ficou por tanto tempo na minha cabeça como o de Suzane Richthofen e dos irmãos Cravinhos. Tenho um interesse absurdo nos três personagens: Suzane - Menina bonita, rica, estudante de Direito. Daniel - O típico namorado que uma menina rica rebelde costuma ter. Chirstian - A grande questão da história: Fez por amor ao irmão, por dinheiro ou por ambos?
Li nessa última semana que Suzane (como uma estratégia de sua defesa) daria entrevista ao Fantástico. A intenção de seu advogado é a de mudar a visão da opinião pública em relação a ela (uma vez que o crime irá a jure) e jogar a culpa para os irmãos Cravinhos.
Não assisti a entrevista ainda, mas no jornal O Globo de hoje uma matéria esclarece que a estratégia foi exagerada, chegando a ponto da equipe do programa gravar em off ordens do advogado como: "Chora!". Todo um clima bizarro foi criado para caracterizar que Suzane era obrigada por Daniel a se drogar e cometer loucuras como foi o assassinato de seus pais.
Além disso outros dois processos correm na justiça: O da família da mãe de Suzane junto com seu irmão Andres pleiteando que ela seja deserdada. E um processo de Suzane com a intenção de assumir os bens de seus pais alegando "descaso" e "irresponsabilidade" por parte do irmão na administração da herança.
Por tudo que li e asssti sobre o caso, acho que Suzane planejou tudo. A idéia provavelmente partiu dela. Mas diante de toda a complexidade e relevância da história em si, isso acaba importando menos. Tenho certeza que passado o julgamento a minha vontade de entrevistar Suzane na prisão só irá crescer.
Até o fim da vida, escrevo essa história.
terça-feira, abril 04, 2006
Onde a terra acaba
Manoel Magalhães: Pois é Mário. Tá difícil o negócio...
Mário Peixoto: Sempre foi.
Manoel Magalhães: Só que nunca como agora. Não tem motivo, você sabe.
Mário Peixoto: Eu sei, eu sei... Comigo foi assim também. Acho que é até melhor não fazer ou não terminar.
Manoel Magalhães: Ou começar outra vez.
Mário Peixoto: Eu começei várias vezes e pelo menos fez sentido. Só que não fazer e não acabar fez mais. Principalmente não acabar. Dorme um pouco, bebe um pouco ou viaja um pouco.
Manoel Magalhães: Sei lá...
Mário Peixoto: Ou não faz...
Manoel Magalhães: Pois é. Quanto tempo leva?
Mário Peixoto: A vida inteira.
Manoel Magalhães: Sempre do mesmo jeito?
Mário Peixoto: Principalmente.
Manoel Magalhães: Já vi que vai ser assim. Me disseram pra ter paciência, pensar melhor.
Mário Peixoto: Eu tive paciência de outra forma, você sabe.
Manoel Magalhães: Eu sei.
Mário Peixoto: De qualquer jeito, existem as possibilidades.
domingo, abril 02, 2006
Calls
Agora virou hábito nas noites aqui em casa, alguém ligar e desligar o telefone na minha cara quando atendo. Geralmente começa depois das 00:00 e acontece umas três vezes por noite.
No início era rápido e seco. Era só atender e pronto: a pessoa já desligou do outro lado da linha.
De uns dias pra cá isso mudou: Eu atendo e sinto que quem está do outro lado quer apenas me ouvir e tentar falar. Talvez tomar coragem pra dizer alguma coisa, mas quando escuta novamente a minha voz repetindo o "Alô?" desiste.
(Enquanto escrevo isso aqui, mais uma vez o telefone tocou)
Geralmente sou bem chato com esse tipo de situação, até porque na maioria absoluta das vezes eu sei quem está ligando. Mas desta não faço a menor idéia. Pode ser uma pessoa que eu conheço bem ou uma que nunca vi na vida.
Será que é aquela namorada que eu amei muito que resolveu voltar atrás? Será alguém que não me conhece mas me ama e quer se declarar? Será uma pessoa que errou feio comigo e se arrependeu? Será um amigo com medo de me contar algo grave? Ou será um maluco me ligando por algum motivo torpe?
Será que a pessoa que liga passa por aqui?
Será que está lendo agora?
Se estiver: na próxima vez que ligar, tome coragem e fale. Não precisa dizer tudo de uma vez, só dizer um "oi" e conversar qualquer coisa que com certeza sabendo quem é, já vou saber do que se trata.
Resolver é sempre melhor.
Para nós dois
No início era rápido e seco. Era só atender e pronto: a pessoa já desligou do outro lado da linha.
De uns dias pra cá isso mudou: Eu atendo e sinto que quem está do outro lado quer apenas me ouvir e tentar falar. Talvez tomar coragem pra dizer alguma coisa, mas quando escuta novamente a minha voz repetindo o "Alô?" desiste.
(Enquanto escrevo isso aqui, mais uma vez o telefone tocou)
Geralmente sou bem chato com esse tipo de situação, até porque na maioria absoluta das vezes eu sei quem está ligando. Mas desta não faço a menor idéia. Pode ser uma pessoa que eu conheço bem ou uma que nunca vi na vida.
Será que é aquela namorada que eu amei muito que resolveu voltar atrás? Será alguém que não me conhece mas me ama e quer se declarar? Será uma pessoa que errou feio comigo e se arrependeu? Será um amigo com medo de me contar algo grave? Ou será um maluco me ligando por algum motivo torpe?
Será que a pessoa que liga passa por aqui?
Será que está lendo agora?
Se estiver: na próxima vez que ligar, tome coragem e fale. Não precisa dizer tudo de uma vez, só dizer um "oi" e conversar qualquer coisa que com certeza sabendo quem é, já vou saber do que se trata.
Resolver é sempre melhor.
Para nós dois
quinta-feira, março 30, 2006
domingo, março 26, 2006
Cosme e Damião ou Gil e Gilson?

Aqui no meu prédio trabalham cinco porteiros. O prestativo Carlos, o infeliz com a vida Francisco, o senhor de idade bem avançada Antônio e dois jovens irmãos que saíram do interior da Paraíba para ganhar a vida no número 72 da rua da Passagem.
Do mais simpático (e com algum carisma) eu logo descobri o nome: Gil. Todos os moradores sempre diziam a cada encontro rápido nos corredores ou na portaria do prédio: "Bom dia, Gil".
Já o outro irmão o tempo foi passando, foi passando e nada. Nenhum nome, apesar dele saber perfeitamente o meu e fazer questão de citar a cada encontro. Sempre um "Oi Manoel" ou "Tudo bom Manoel?". Tenho uma vergonha absurda de perguntar o nome a pessoas que sabem o meu. Então ficamos assim por quase dois anos, eu acho. Nesse tempo todo nunca ouvi nenhum outro morador dizendo o nome desse segundo irmão.
É mais feio que o outro, mais fechado, parecendo guardar não só uma certa melancolia, mas como também a identidade. Talvez por julgar ser quase desnecessária essa informação para os moradores.
Então um dia no meio de uma conversa mais prolongada, resolvi perguntar (passando por esquecido): "Qual o seu nome mesmo? Sempre esqueço..."
"Gilson".
Estava explicado. Gil e Gilson. Com todos aqueles preconceitos que trago guardados aqui em algum lugar, pensei: 'No Nordeste isso é normal, esses nomes entre a matemática e a influência das duplas sertanejas'.
Esticando o papo que levava com os dois e querendo entender melhor perguntei ao Gil: "Sabe o razão dos nomes? Por que seus pais escolheram esses nomes parecidos?".
Aí a revelação: "Na verdade não escolheram. Nossos nomes são Cosme e Damião. Mas todo mundo sempre chamou assim: Gil e Gilson."
"Como assim? Por que sempre chamaram assim se os nomes são Cosme e Damião?"
"Porque sim."
Não adiantou argumentar ou perguntar mais nada. O motivo ele não sabia ou não quis realmente me dizer (o que acho mais provável).
Por que diabos dois irmãos chamados 'Cosme e Damião' acabam virando Gil e Gilson? Os pais se arrependeram? Os filhos não gostavam dos nomes originais e resolveram adotar outros? Até agora não sei mesmo, apesar de conversar mais tempo com eles a cada dia.
Tenho certeza que no universo dos dois, as surpresas não param por aí.
Como descobrir uma parte disso tudo é que eu ainda não sei.
quinta-feira, março 23, 2006
Camisa

Sério: quero muito uma camisa do Mascherano!
Gênio! Fiquei super feliz por descobrir um blog sobre ele.
Vou passar lá sempre agora:
http://www.blogjaviermascherano.blogspot.com
segunda-feira, março 20, 2006
Places you have come to fear the most
O Supermercado, a calçada, os prédios e a padaria estão interessando mais. Existe um horário, existe a minha vida. Ah claro, os outros também existem. As canções que tocam aqui dentro, e as que tocam lá fora (e ouço pela janela) escrevem uma nova trilha. Como fiquei tanto tempo sem ouvir isso? "Relmente, você não sabe de nada".
As contas, os planos, as fotos e os outros estão interessando menos. Opinião eu já não dou mais. Chegando a conclusão de que não existem grupos a não ser nos esportes coletivos. Atualmente até desses eu suspeito. Suspeito ainda mais das pessoas. Não essas normais, de rua, mas das que eu conheço. A maioria das pessoas que eu conheço não tem utilidade, pelo menos pra mim.
Pra você geralmente dizem uma coisa, para o outro dizem outra. Eu também faço isso? Você também faz isso? Provavelmente. Mas é melhor parar você não acha?
Algumas pessoas gostam de você de graça. Do que isso importa se você não gosta delas? E não me venha com esse papo de 'eu só vou gostar de quem gosta de mim'. Você gosta de alguns de graça também, mas provavelmente estes alguns também não gostam de você. Por isso defendo as ruas, os nomes, o supermercado e a padaria. Esses sim, geralmente gostam tanto de você quanto você puder gostar deles.
Algo entre o tudo e o nada. Entre o folk e o hardcore.
Não parece nada profundo, mas é. Ter um milhão de amigos pra que? Você não vai ter tempo pra brigar com todos eles. O dificil é se livrar de quem quer ser seu amigo. Então diz: Por que quer ser meu amigo? Algum interesse deve ter. Só quem é bem maluco olha pra cara de outra pessoa e pensa: "Nossa, quero muito ser amigo dele'. Tirando os loucos, as outras amizades estão no limiar do interesse, mesmo que seja mínimo.
Geralmente quem quer ser seu amigo tem muito menos a te dar do que receber. E quem pode te dar mais, provavelmente não vai querer sua amizade por achar que vai ganhar com você de menos. Então eu repito: melhor a padaria, o supermercado, a calçada. Nesse acaso todo, geralmente acontecem as coisas mais interessantes do mundo.
As pessoas mais importantes da sua vida estão lá: na rua, no carro, na faculdade. A felicidade as vezes nasce desse distúrbio.
As contas, os planos, as fotos e os outros estão interessando menos. Opinião eu já não dou mais. Chegando a conclusão de que não existem grupos a não ser nos esportes coletivos. Atualmente até desses eu suspeito. Suspeito ainda mais das pessoas. Não essas normais, de rua, mas das que eu conheço. A maioria das pessoas que eu conheço não tem utilidade, pelo menos pra mim.
Pra você geralmente dizem uma coisa, para o outro dizem outra. Eu também faço isso? Você também faz isso? Provavelmente. Mas é melhor parar você não acha?
Algumas pessoas gostam de você de graça. Do que isso importa se você não gosta delas? E não me venha com esse papo de 'eu só vou gostar de quem gosta de mim'. Você gosta de alguns de graça também, mas provavelmente estes alguns também não gostam de você. Por isso defendo as ruas, os nomes, o supermercado e a padaria. Esses sim, geralmente gostam tanto de você quanto você puder gostar deles.
Algo entre o tudo e o nada. Entre o folk e o hardcore.
Não parece nada profundo, mas é. Ter um milhão de amigos pra que? Você não vai ter tempo pra brigar com todos eles. O dificil é se livrar de quem quer ser seu amigo. Então diz: Por que quer ser meu amigo? Algum interesse deve ter. Só quem é bem maluco olha pra cara de outra pessoa e pensa: "Nossa, quero muito ser amigo dele'. Tirando os loucos, as outras amizades estão no limiar do interesse, mesmo que seja mínimo.
Geralmente quem quer ser seu amigo tem muito menos a te dar do que receber. E quem pode te dar mais, provavelmente não vai querer sua amizade por achar que vai ganhar com você de menos. Então eu repito: melhor a padaria, o supermercado, a calçada. Nesse acaso todo, geralmente acontecem as coisas mais interessantes do mundo.
As pessoas mais importantes da sua vida estão lá: na rua, no carro, na faculdade. A felicidade as vezes nasce desse distúrbio.
domingo, março 05, 2006
Sobre canções e o outono passado.
Acho que era Julho de 2002. Uma cidade quente do interior fluminense. Alguns garotos, o carro em movimento e um violão. Esse é o filme que tenho na cabeça, nós cantávamos "Se você quiser se divertir invente suas próprias canções", chovia muito sobre nós aquela noite.
De lá pra cá se passaram quase quatro anos, e seguimos assim: compondo as nossas próprias canções. Compondo a história da minha vida e a história da sua vida. Às vezes deve ser bem difícil ser quem você é, porque eu entendo que é muito difícil ser quem eu sou. Lembro de tocar violão e conversar em algumas madrugadas. Lembro de cantar as suas, como você já deve ter cantando as minhas. Lembro de ouvi-lo ao longe no outro quarto.
Um amigo existe pra transformar em poesia o que as relações diárias transformam em matemática. Por esse cara, eu faria qualquer coisa. Olhando pra trás, lá para 1999 eu vejo que cada dia não teve volta. Tudo passou. As mulheres, os amigos, as cores, os lugares. Tudo menos nós e as nossas canções. Escrever isso sobre você agora, me fez lembrar o Nando, que assim como você sempre acreditou em mim como ninguém mais conseguiu.
Muitas outras coisas irão passar, você sabe irmão, pode contar comigo sempre, prefiro antes de mim, pensar em você. Naquela noite de chuva, nós dois entendemos que a única escolha é cantar uma verdade que é nossa. Hoje várias outras pessoas vivem dessa nossa verdade, mas não podemos esquecer que ela é nossa, só nossa. Quando um refrão seu toca, um pouco do meu coração está ali também.
Cara, se eu te escrevo isso agora e choro é porque realmente aprendi com o seu carinho o quão grande é a palavra 'Amor'. Nós fazemos do mundo mais que canção, porque essas sim: são nossas.
De lá pra cá se passaram quase quatro anos, e seguimos assim: compondo as nossas próprias canções. Compondo a história da minha vida e a história da sua vida. Às vezes deve ser bem difícil ser quem você é, porque eu entendo que é muito difícil ser quem eu sou. Lembro de tocar violão e conversar em algumas madrugadas. Lembro de cantar as suas, como você já deve ter cantando as minhas. Lembro de ouvi-lo ao longe no outro quarto.
Um amigo existe pra transformar em poesia o que as relações diárias transformam em matemática. Por esse cara, eu faria qualquer coisa. Olhando pra trás, lá para 1999 eu vejo que cada dia não teve volta. Tudo passou. As mulheres, os amigos, as cores, os lugares. Tudo menos nós e as nossas canções. Escrever isso sobre você agora, me fez lembrar o Nando, que assim como você sempre acreditou em mim como ninguém mais conseguiu.
Muitas outras coisas irão passar, você sabe irmão, pode contar comigo sempre, prefiro antes de mim, pensar em você. Naquela noite de chuva, nós dois entendemos que a única escolha é cantar uma verdade que é nossa. Hoje várias outras pessoas vivem dessa nossa verdade, mas não podemos esquecer que ela é nossa, só nossa. Quando um refrão seu toca, um pouco do meu coração está ali também.
Cara, se eu te escrevo isso agora e choro é porque realmente aprendi com o seu carinho o quão grande é a palavra 'Amor'. Nós fazemos do mundo mais que canção, porque essas sim: são nossas.
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