Domingo, Maio 27, 2012
Quinta-feira, Maio 17, 2012
pequeno conto de recomeço
por mais que a semana fosse inundada por uma chuva longa, os sapatos encharcados, a alma perdida aos poucos para o exército de desconhecidos próximos, tudo parecia sempre a mesma coisa. ele pensou que valeria a pena tomar uma café feito em casa, convidar uma estranha, conversar sobre o nada.
- oi, te vi mais cedo, não tinha certeza se era você.
- oi, tudo bem? onde? nessa rua mesmo?
- é, atravessando ali. te vejo muito por aqui, mas nunca tenho certeza.
- é? eu ando muito por aqui, eu acho.
- pra onde você vai agora?
- pra casa... quer ir?
- pra sua casa?
- é.
- sério? não sei... onde você mora?
- copacabana.
- não sei...
- então...
- ai, não sei... o que a gente faria lá?
- sei lá, conversaria, posso comprar uma bebida, posso cozinhar, não tenho nada programado.
- nem eu...
- você sempre usa esse batom vermelho?
- rá... que engraçado. claro que não, né. não é todo dia que a gente usa batom vermelho. por acaso você lembra de me ver assim antes?
- é... não... não sei. hoje eu só presto atenção no hoje.
- mas você nem me encontrada tanto. na verdade, nunca me encontra.
- é mesmo... nunca te encontro...
- mas e aí, não vamos à sua casa então...
- não... hoje, vamos hoje. vamos agora.
- oi, te vi mais cedo, não tinha certeza se era você.
- oi, tudo bem? onde? nessa rua mesmo?
- é, atravessando ali. te vejo muito por aqui, mas nunca tenho certeza.
- é? eu ando muito por aqui, eu acho.
- pra onde você vai agora?
- pra casa... quer ir?
- pra sua casa?
- é.
- sério? não sei... onde você mora?
- copacabana.
- não sei...
- então...
- ai, não sei... o que a gente faria lá?
- sei lá, conversaria, posso comprar uma bebida, posso cozinhar, não tenho nada programado.
- nem eu...
- você sempre usa esse batom vermelho?
- rá... que engraçado. claro que não, né. não é todo dia que a gente usa batom vermelho. por acaso você lembra de me ver assim antes?
- é... não... não sei. hoje eu só presto atenção no hoje.
- mas você nem me encontrada tanto. na verdade, nunca me encontra.
- é mesmo... nunca te encontro...
- mas e aí, não vamos à sua casa então...
- não... hoje, vamos hoje. vamos agora.
Domingo, Abril 29, 2012
um leão por sonho
se traduzir a vida é possível, sonhar é a única linguagem de referência para todo o nosso acaso. o leão que cruzou meu sono parece mais uma dessas grandes imagens que registro do outro lado do cérebro, desenho de um novo caminho, onde o medo de tudo é também a certeza de ainda contar com as possibilidades. nenhuma dor te devora antes do ato consumado. e se a luta é inevitável, que a morte seja apenas uma carta neste tarô do inconsciente, onde até os pesadelos são simbólicos:
morrer é acordar. sempre.
morrer é acordar. sempre.
Quinta-feira, Março 29, 2012
diálogos de transporte público
- amor, você é idiota?
- se dissesse que sou inteligente, você sabe, eu estaria mentindo.
- mas assim, falando de forma direta, você se considera idiota?
- hummmm, acho que não.
- que bom.
- se dissesse que sou inteligente, você sabe, eu estaria mentindo.
- mas assim, falando de forma direta, você se considera idiota?
- hummmm, acho que não.
- que bom.
Quinta-feira, Março 15, 2012
sobre o básico e outras necessidades
o buraco no navio da vida é a distância entre o que temos e o que queremos a mais. todos as linhas de sofrimento despejadas nesse espaço, basicamente, são sobre o mesmo assunto. é simples e sem solução. se a morte é o fim da experiência, do nascimento até o ponto final existe um espaço que parece eterno, perfeito para ser deixado para amanhã. você não ama o hoje, a hora, a mãe, o pai, a filha, o tio ou a água porque acredita que falta algo mais importante, o pulo do gato que vai te trazer a felicidade absoluta e o tempo necessário para fazer tudo isso. as coisas que realmente te representam como existência vão para a caixa do que já é seu, espaço conquistado e esquecido, já o que falta é a menina dos olhos. nossos e dos que nos observam.
o problema é que sempre falta alguma coisa. e todas as drogas e remédios modernos existem para domar esse leão do desejo próximo, do amanhã que nunca chega. a frustração de querer tanto e conseguir pouco desajusta a alma, desregula o pouco de sanidade que poderia servir como força para dar atenção ao óbvio. mas sociedade nenhuma avança sem desejos, sem o mercadinho dos grandes sonhos. com a exposição do tempo recortado em melhores momentos, das fotos de mural público, desse grande espetáculo da vida sem finalidade, somos filhos de um medo que nos asfixia, que paralisa o ímpeto de amar o óbvio.
o problema é que sempre falta alguma coisa. e todas as drogas e remédios modernos existem para domar esse leão do desejo próximo, do amanhã que nunca chega. a frustração de querer tanto e conseguir pouco desajusta a alma, desregula o pouco de sanidade que poderia servir como força para dar atenção ao óbvio. mas sociedade nenhuma avança sem desejos, sem o mercadinho dos grandes sonhos. com a exposição do tempo recortado em melhores momentos, das fotos de mural público, desse grande espetáculo da vida sem finalidade, somos filhos de um medo que nos asfixia, que paralisa o ímpeto de amar o óbvio.
Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012
diga alguma coisa
enquanto os olhos estão fechados, os dias não vão além de escolher um buraco na rotina, um pequeno espaço para mudar de cor, chamar de tábua de salvação, chamar de cura. todos podemos mentir que tudo parece bom, que é assim mesmo a vida, que é preciso crescer e aceitar que o destino tem jeito, é só colorir essas migalhas de tempo em que nos enganamos, viciados em coisas que passam, cegos por coisas que nem sabemos quais são, mas os outros parecem felizes, mais felizes que nós, não são, ninguém é até dar conta do inevitável, da morta súbita, do dia seguinte, muitas pequenas tarefas realizadas para nada, sem obra, sem glória pessoal, só toneladas de digitais vazias, ninguém é nada até se bastar. atravessar esta barreira expõe o quanto nos conformamos.
o forte tentaria fugir para longe de nós.
Segunda-feira, Janeiro 02, 2012
Sexta-feira, Dezembro 30, 2011
.012
um cara me disse que existe uma fenda no estádio do canindé para outra dimensão. abre uma viagem metafísica, chance de viver experiências diferentes dessas todas possíveis com a cabeça cansada do cotidiano.
lá, segundo uma lenda antiga, está enterrado um trator.
neste berço de histórias insanas, sinificado psicanalítico não falta para acreditar na possibilidade de mudança.
- precisamos enterrar tratores.
pensei alto, ainda em 2011.
Quarta-feira, Novembro 30, 2011
le récit de la journée
ela cantava com o toca-fitas.
sei
o tempo errou
me derrubou
me consumiu
me deixou surdo.
e o que ficou na ausência de futuro?
não sabia da premonição. não sabia de nada porque no dia em que se vive alguma coisa séria ninguém pensa na vida. as ruas do outro lado da cidade estavam vazias, os poucos bares pareciam gélidos, era uma sexta-feira que não aconteceria em qualquer outro lugar do mundo. ela ria. achando quase tudo inteligente. ele não fumava, ela dirigia.
- onde vamos agora?
- não sei, tá tudo fechado.
- a gente pode ficar só rodando e ouvindo música.
- nunca vi a metade dessas ruas, sabia?
- nem eu, mas tá legal.
pararam na margem do rio, ele bebia e a espiava um pouco, coisa de olhar rápido enquanto desatava algum assunto bobo. ela, do nada, andou até um bico de luz, abaixou-se e mijou no chão. parecia louca de tanto que ria voltando correndo da casinha abandonada.
- que foi isso? tá maluca?
- queria ir ao banheiro, ué. aqui não tinha.
ainda rindo por achar engraçada a situação, mas também por vê-lo desacreditar de tudo aquilo. beberam mais um pouco, ela contou uma história da mãe, outra do pai e ainda outra dos dois juntos. ele lembrou de um fita que faltava ouvir e voltaram ao carro. só duas ruas até as amendoeiras onde estacionaram definitivamente. ficaram no carro.
- sabe que eu falei de você para a cristina?
- que cristina? aquela sua amiga?
- é sim.
- falou o que?
- que gosto de você.
- você gosta de mim?
- gosto.
se eu pudesse te ver sem derreter
não iria haver
adeus.
continuou a girar no toca-fitas.
Segunda-feira, Novembro 28, 2011
Sexta-feira, Novembro 25, 2011
nunca é nada #2
- alô.
- sou eu, tive que te ligar, fiquei com muito medo agora. o que a gente faz? será que vai dar certo?
- calma, hoje foi ótimo, tenho certeza que vamos acabar na islândia.
- você me leva pra islândia? jura?
- levo, prometo.
- tudo bem, me liga amanhã?
- ligo, assim que acordar.
Quarta-feira, Novembro 23, 2011
nunca é nada #1
- conversei com o rafael hoje, eu nem sou amiga dele, você sabe, mas disse que não consigo aguentar essa história da sua viagem no final de semana, que não sei o que faço...
- onde você está?
- no trabalho, não aguentei, tive que te ligar daqui pra falar isso. você volta pra mim?
- mas calma... é isso mesmo que eu to pensando?
- é sim. quando você voltar a gente conversa? eu acho que eu te amo mesmo, não tem jeito.
Quinta-feira, Novembro 10, 2011
tudo continua
parece o início. não sei quem sou agora mas acredito na vaga ideia de quem fui nesse passado escondido. alguém aí lembra do cara que escrevia o chelsea nights? ele existiu, eu juro, mas não somos mais tão íntimos. quase não nos vemos, na verdade.
dois anos na casa nova. caiu a ficha depois de voltar do avião que eu sempre acho que vai cair. dois anos quase inteiros de um cara novo que ainda não conheço, não sei descrever e infelizmente não tive tempo e disciplina de documentar. tudo que não era forte já foi para a lata do lixo e a vida nova só guarda algumas neuroses, essas sim, eternas. tudo bem, é preciso conviver. na verdade é preciso vivenciar. aproveitar tudo que foi construído com a cola do sólido e do relevante. a sensação de só poder melhorar, sabe? falar disso é como tentar cuspir um início tímido de elaboração, a mais difícil delas até aqui.
não sei qual é a história, mas vou tentar inventar. prometo.
Terça-feira, Novembro 08, 2011
Segunda-feira, Setembro 12, 2011
Terça-feira, Agosto 09, 2011
verbalizando
ela pensa, sente e não diz.
o buraco fica ali exposto, quase pulando da pele quando a dificuldade de dizer o necessário é explícita, praticamente vergonhosa. existe motivo, qualquer um entenderia, mesmo com a pena de perder o momento importante. ou adiar.
existe uma luz que vem da padaria, tudo ali parece preparado pelo destino para o momento que não vai acontecer, um pequeno movimento com corpo já seria suficiente para modificar toda a lista de impossibilidades levantadas ao longo das duas semanas até aquela noite.
Quarta-feira, Agosto 03, 2011
Sexta-feira, Julho 22, 2011
mulher, mulher
(cinco horas e quarenta e dois minutos)
- eu preciso ir embora.
- precisa mesmo?
- acho que preciso.
- acha que precisa ou acha que deve?
- acho que devo. sei lá o que eu acho, na verdade.
- então você vai?
- vou. minha viagem é logo pela manhã.
- e você quer ir embora?
- não faz sentido ficar aqui.
- você não respondeu se quer mesmo ir embora.
- não, não quero. mas vou.
Quinta-feira, Julho 07, 2011
não mora mais ali ou de natureza prosaica
alguém de onde não veio novidade, recado, sentimento, telefonema, carta, bilhete rabiscado, pedido de socorro, nada. não existe além das páginas amarelas. impossível imaginar vida reservada ao ponto da felicidade, do recolhimento, auto exílio que não me engana, ou vai querer me convencer que não existe por aí aquele buraco da angústia de qualquer ser humano normal, ainda mais com todo esse tédio do espaço vazio, branco e iluminado. sem filme, sem disco, sem nada. vai me dizer que tem tudo? vai falar que o que falta é compensado com amor e revista caras? no meio do nada qualquer coisa deve servir pra sala de espera, eu sei. a vida passa e tudo vai terminar em um acidente vascular grave. aqui ou aí. nem adianta duvidar.
ouvi dizer que na ilha só existe uma cadeira. as pessoas marcam, sentam, choram suas pitangas e pagam. e quem está do outro lado? também chora? também paga? bem que alguém poderia fazer o papel horroroso de me contar, atravessar essas suas histórias de felicidades e piratas, já que como outsider, preciso tirar o chapéu, que vitória incontestável em não existir, em silenciar transformando o mundo nessa budapeste que chove eternamente, sem notícias nem homens de coragem, só idiotas que falam demais. assim, exatamente como eu, sabe? parabéns, liberdade é a sua não-palavra.
Segunda-feira, Junho 13, 2011
I know this world is killing you
- o acaso sobre qualquer coisa, o acaso como religião.
você dirá e talvez nem saiba. o roteiro é meu.
e com seu vestido de festa podemos passar algumas horas na rua estreita que corta tantas outras ruas, maiores ou menores, a música que precisamos nos alto-falantes, abafada pelo ambiente que torna tudo mais desesperado e leve, porque vontade não é necessidade, vontade é a certeza do impossível na boca da realização, e ganhar um impossível de presente é valer-se de estar vivo e pronto para a vida, oportuno e transformador, aproveitando o que ninguém sabe que é maravilhoso como o diabo. tudo pode acontecer quando vontade é destino.
estar ali seria invadir madrugadas de um tempo que nos entenderia, como elvis costello cantando para você voltar do banheiro, rindo com a clara certeza do meu desejo, do subtexto que existe em querermos o mesmo, e rápido deixamos as coisas acontecerem como o tempo quiser escrever, querendo mesmo é que venha o inacreditável, capricho de quem aproveita o prazer a dois como realização individual da fúria, fome, sorte, não existe coisa óbvia ou passada que nos represente em vontade, não existe verdade que traduza querer demais, ansiar, babar como um louco que entra em teu corpo como o próprio demônio, com certeza e loucura de quem aperta a carne pensando no tempo, aquele da ânsia até este instante chegar, o dedo correr e a vontade passar.
desapertando, despedindo, realizando o corte simbólico.
- se você resolver continuar, eu quero.
ainda dirá.
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