Pois é. A nuca agora exposta já diz que o sonho acabou de vez, não é Fitzgerald? A menina foi embora e levou o sonho, as cores, as chances. Levou meu ano inteiro com ela. A esperança também foi embora e só ficou mesmo esse vazio do inferno, esse gosto de derrota lenta, gosto de suor salgado. Eu sigo tentando de olhos fechados, ou pior, de cabeça fechada para o mundo. Não quero novidade, carro, supermercado, cerveja, criança ou pão com margarina. Não quero contato.
O cabelo agora é só detalhe no chão marcado de sol. Ela vai longe e pensa em detalhes, agora anda nervosa com as responsabilidades, com os 30 dias que perdeu nas férias, vai ver só pensa em viver e pronto. Pra que mais, meu filho? Não complica que isso tudo é outra vez coisa da sua cabeça.
Coisa, sabe "coisa"? É só isso. Besteira, besteira e besteira. Agora esquece esse lance de sonhar e vai viver no concreto lá da avenida Maracanã, vai que lá a vida faz mais sentido que a arquitetura soviética, sabe? Lá as pessoas pulam do décimo andar se começa a ficar realmente tudo muito complicado. Entendeu então? É até bem simples: Ana cortou o cabelo e pronto. Não tem razão que explique a violência da vida pra quem resolve sonhar em voz alta. Você não quis isso? Não resolveu seguir com ela aquela noite? Então pronto, porra. Cala essa boca enorme e aceita que acabou. Tudo acabou no seu peito, no coração e em cada fio que a tesoura levou.
Ana acabou aqui nesse hotel. Passar bem.