tristeza é se sentir como um país esquecido.
onde nenhum mapa pode definir todo esse espaço vazio.
segunda-feira, julho 23, 2012
f for fake
ela gosta de responder que é escritora, que vive vinte e quatro horas pra isso. sente que encontrou o caminho, que essa é a batalha por sua verdadeira vocação, o capricho de seu dom. mas é só observar a expressão quando a pergunta é sobre o dinheiro proveniente da atividade. nada? você não ganha nada? ah, então não é trabalho mesmo? mas você não faz outra coisa? isso porque a educação sempre impossibilita a vontade alheia do quem paga por isso?
ela cospe que ignorância é assim mesmo, que esses porcos só querem mamadeira e danoninho, essa banalidade de uma vida não artística, que ser escritor é resvalar a sarjeta, que a arte alimenta e engorda. mas não lhe falta nada. com mãe, pai e marido, a mesa de queijos e vinhos é sempre garantida. na verdade, pra ser escritora, só falta o livro.
ela cospe que ignorância é assim mesmo, que esses porcos só querem mamadeira e danoninho, essa banalidade de uma vida não artística, que ser escritor é resvalar a sarjeta, que a arte alimenta e engorda. mas não lhe falta nada. com mãe, pai e marido, a mesa de queijos e vinhos é sempre garantida. na verdade, pra ser escritora, só falta o livro.
quarta-feira, julho 18, 2012
I am trying to break your heart
Não me pergunte o que motiva alguém a fazer música. Também não sei qual é o desvio que nos apaixona, nem mensurar a dor quando tudo acaba. Só sei que algumas músicas são feitas para cobrir esse buraco do fim, pra não deixar encher a casa toda de arrependimento. Não sei mais nada sobre você, absolutamente nada. E acho que você se importa pouco com isso, o que tanto faz, já que você também não me importa mais. E felizmente, nunca existiu música alguma a seu respeito ou com seu nome. Apaixonada ou de dor póstuma. Mesmo sabendo que não é possível destruir a memória inteira, desse remorso não sofrerei. Aliás, onde eu estava com a cabeça que não parti seu coração?
* texto para o tributo aos dez anos do yankee hotel foxtrot.
* texto para o tributo aos dez anos do yankee hotel foxtrot.
terça-feira, julho 17, 2012
elefantes indesejáveis #2
[fita 1] provavelmente você ainda não pensou em registrar epifanias. antes de decidir gravar essa fita eu não tinha certeza de que o mal que o passado me fez foi em vão. até porque saber algo assim de véspera poupa sofrimento, mas também rouba o grande prazer de atropelar o tempo e os antigos inimigos. o ódio que você planta, dizem os idiotas, volta até você. tive a prova inequívoca de que um dia ele é colhido como uma árvore de beleza, o fruto frio é subestimado em sua contundência. a vingança é a mais bela forma de reconciliação pessoal.
quinta-feira, julho 12, 2012
elefantes indesejáveis #1
- ele não aparenta felicidade. na verdade, não se esforça para mostrar qualquer coisa, é muito esquisito. quando era criança esmagou o rosto de um menino, isso na terceira série primária, dá pra acreditar?
carmem, no papel antigo de quase mãe, parecia muito nervosa ao telefone.
- mas o que aconteceu dessa vez?
- os vizinhos estão reclamando de coisas estranhas que ele faz.
- mas isso não é normal? ele sempre faz coisas estranhas. aliás, o que você tem a ver com isso agora?
- nada, mas você sabe, o final pode ser trágico.
- e daí? não te diz mais respeito.
- eu me sinto culpada.
- culpada?
- é... por não ter conseguido muda-lo.
- ninguém muda ninguém, carmem. ainda mais esse cara.
- acho que vou até lá ver o que aconteceu.
- não perde seu tempo com isso, não vale a pena, você já fez muito.
- é verdade.
- só alguém tão maluco quanto ele vai entender.
sexta-feira, julho 06, 2012
retalho
a noite avançando nas ruas vazias e pouco iluminadas de villa crespo, passamos por oito quadras e os restaurantes ainda abertos estavam lotados. só podemos colocar na conta do acaso encontrar aquela pizzaria, sem clientes, sem ninguém na cozinha, só um senhor idoso e simpático no balcão, um cachorro e o som desgraçado da tv pública argentina transmitindo o campeonato nacional.
o senhor sorriu e pareceu realmente feliz de ter duas outras pessoas ali. disse que o pedido sairia rápido, que o pão caseiro era ótimo, que traria vinho, que podíamos pedir o que quiséssemos que daria um jeito. correu até a rua para chamar a mulher, não sei se esposa ou só cozinheira, que correu para os fundos onde prepararia a comida, com o acompanhamento fiel de nossos olhos. tinha alguma deformidade, acho que uma grande queimadura, mas o tom de irrealidade sensível das coisas vai apagando minha memória prática.
a comida estava boa. o cão era grande e nos observava, dócil como o dono. o vinho forte tinha gosto de gente, e nenhuma outra coisa que bebi na vida parecia assim, melhor que a representação do que seria bom. comemos e pagamos com pressa, estávamos atrasados. o cachorro ganhou a rua correndo e não foi repreendido, devia estar acostumado. nunca saberei como é a vida daquelas pessoas, mas guardo a sensação de ter vivido a mais humana das experiências.
o senhor sorriu e pareceu realmente feliz de ter duas outras pessoas ali. disse que o pedido sairia rápido, que o pão caseiro era ótimo, que traria vinho, que podíamos pedir o que quiséssemos que daria um jeito. correu até a rua para chamar a mulher, não sei se esposa ou só cozinheira, que correu para os fundos onde prepararia a comida, com o acompanhamento fiel de nossos olhos. tinha alguma deformidade, acho que uma grande queimadura, mas o tom de irrealidade sensível das coisas vai apagando minha memória prática.
a comida estava boa. o cão era grande e nos observava, dócil como o dono. o vinho forte tinha gosto de gente, e nenhuma outra coisa que bebi na vida parecia assim, melhor que a representação do que seria bom. comemos e pagamos com pressa, estávamos atrasados. o cachorro ganhou a rua correndo e não foi repreendido, devia estar acostumado. nunca saberei como é a vida daquelas pessoas, mas guardo a sensação de ter vivido a mais humana das experiências.
quarta-feira, julho 04, 2012
o rio que vai me levar não passa na sua cidade
para encerrar qualquer assunto,
eu te diria que santidade é necessária para enfrentar os fatos, que até vender banana pode ser mais lucrativo que investir em transformação, em processo, mas não te preocupa com isso, não vai te abalar em nada além dessa disfunção característica, você já nasceu assim e o melhor é se ocupar de riso, mergulhar no raso da piscina estreita, ser o mínimo, ou seja, o mimo.
meu caminho de angústia é longo. troco tempo de vida por dinheiro que compra as horas vagas, e se conseguir dedicar a próxima década a te provar que posso produzir mais que uma cidade inteira, terá valido a pena, levei os últimos dez anos ensaiando essas palavras, avancei dois passos e sei que vontade é força bruta, que o tempo é cruel, mas também uma dádiva.
ele nos igualou. agora é hora de superar.
eu te diria que santidade é necessária para enfrentar os fatos, que até vender banana pode ser mais lucrativo que investir em transformação, em processo, mas não te preocupa com isso, não vai te abalar em nada além dessa disfunção característica, você já nasceu assim e o melhor é se ocupar de riso, mergulhar no raso da piscina estreita, ser o mínimo, ou seja, o mimo.
meu caminho de angústia é longo. troco tempo de vida por dinheiro que compra as horas vagas, e se conseguir dedicar a próxima década a te provar que posso produzir mais que uma cidade inteira, terá valido a pena, levei os últimos dez anos ensaiando essas palavras, avancei dois passos e sei que vontade é força bruta, que o tempo é cruel, mas também uma dádiva.
ele nos igualou. agora é hora de superar.
quinta-feira, junho 28, 2012
para quebrar pequenas pedras
nada é fácil.
mas enfrentar o difícil é a única escolha para quem não quer morrer e olhar apenas para o absoluto vazio. vida em branco. por isso se faz casa ou compra-se os utensílios de preenchimento. as opções do que sustentar como duradouro definem o caminho inteiro.
tudo é escolha.
e difícil não é optar, difícil é sustentar estas trajetórias como profissões de fé, permanecer firme nos buracos, nos cortes arbitrários, ser forte na porta do não opcional.
somos máquinas frágeis para este tipo de serviço.
mas enfrentar o difícil é a única escolha para quem não quer morrer e olhar apenas para o absoluto vazio. vida em branco. por isso se faz casa ou compra-se os utensílios de preenchimento. as opções do que sustentar como duradouro definem o caminho inteiro.
tudo é escolha.
e difícil não é optar, difícil é sustentar estas trajetórias como profissões de fé, permanecer firme nos buracos, nos cortes arbitrários, ser forte na porta do não opcional.
somos máquinas frágeis para este tipo de serviço.
segunda-feira, junho 11, 2012
quarta-feira, junho 06, 2012
acordo registrado em via única
tenho muitas partes de contos sonhados e ideias de canções que não existem. a matéria prima para um disco e um livro, processos de um caminho melhor. tudo porque preciso muito mudar.
domingo, maio 27, 2012
quinta-feira, maio 17, 2012
pequeno conto de recomeço
por mais que a semana fosse inundada por uma chuva longa, os sapatos encharcados, a alma perdida aos poucos para o exército de desconhecidos próximos, tudo parecia sempre a mesma coisa. ele pensou que valeria a pena tomar uma café feito em casa, convidar uma estranha, conversar sobre o nada.
- oi, te vi mais cedo, não tinha certeza se era você.
- oi, tudo bem? onde? nessa rua mesmo?
- é, atravessando ali. te vejo muito por aqui, mas nunca tenho certeza.
- é? eu ando muito por aqui, eu acho.
- pra onde você vai agora?
- pra casa... quer ir?
- pra sua casa?
- é.
- sério? não sei... onde você mora?
- copacabana.
- não sei...
- então...
- ai, não sei... o que a gente faria lá?
- sei lá, conversaria, posso comprar uma bebida, posso cozinhar, não tenho nada programado.
- nem eu...
- você sempre usa esse batom vermelho?
- rá... que engraçado. claro que não, né. não é todo dia que a gente usa batom vermelho. por acaso você lembra de me ver assim antes?
- é... não... não sei. hoje eu só presto atenção no hoje.
- mas você nem me encontra tanto. na verdade, nunca me encontra.
- é mesmo... nunca te encontro...
- mas e aí, não vamos à sua casa então...
- não... hoje, vamos hoje. vamos agora.
- oi, te vi mais cedo, não tinha certeza se era você.
- oi, tudo bem? onde? nessa rua mesmo?
- é, atravessando ali. te vejo muito por aqui, mas nunca tenho certeza.
- é? eu ando muito por aqui, eu acho.
- pra onde você vai agora?
- pra casa... quer ir?
- pra sua casa?
- é.
- sério? não sei... onde você mora?
- copacabana.
- não sei...
- então...
- ai, não sei... o que a gente faria lá?
- sei lá, conversaria, posso comprar uma bebida, posso cozinhar, não tenho nada programado.
- nem eu...
- você sempre usa esse batom vermelho?
- rá... que engraçado. claro que não, né. não é todo dia que a gente usa batom vermelho. por acaso você lembra de me ver assim antes?
- é... não... não sei. hoje eu só presto atenção no hoje.
- mas você nem me encontra tanto. na verdade, nunca me encontra.
- é mesmo... nunca te encontro...
- mas e aí, não vamos à sua casa então...
- não... hoje, vamos hoje. vamos agora.
domingo, abril 29, 2012
um leão por sonho
se traduzir a vida é possível, sonhar é a única linguagem de referência para todo o nosso acaso. o leão que cruzou meu sono parece mais uma dessas grandes imagens que registro do outro lado do cérebro, desenho de um novo caminho, onde o medo de tudo é também a certeza de ainda contar com as possibilidades. nenhuma dor te devora antes do ato consumado. e se a luta é inevitável, que a morte seja apenas uma carta neste tarô do inconsciente, onde até os pesadelos são simbólicos:
morrer é acordar. sempre.
morrer é acordar. sempre.
quinta-feira, março 29, 2012
diálogos de transporte público
- amor, você é idiota?
- se dissesse que sou inteligente, você sabe, eu estaria mentindo.
- mas assim, falando de forma direta, você se considera idiota?
- hummmm, acho que não.
- que bom.
- se dissesse que sou inteligente, você sabe, eu estaria mentindo.
- mas assim, falando de forma direta, você se considera idiota?
- hummmm, acho que não.
- que bom.
quinta-feira, março 15, 2012
sobre o básico e outras necessidades
o buraco no navio da vida é a distância entre o que temos e o que queremos a mais. todos as linhas de sofrimento despejadas nesse espaço, basicamente, são sobre o mesmo assunto. é simples e sem solução. se a morte é o fim da experiência, do nascimento até o ponto final existe um espaço que parece eterno, perfeito para ser deixado para amanhã. você não ama o hoje, a hora, a mãe, o pai, a filha, o tio ou a água porque acredita que falta algo mais importante, o pulo do gato que vai te trazer a felicidade absoluta e o tempo necessário para fazer tudo isso. as coisas que realmente te representam como existência vão para a caixa do que já é seu, espaço conquistado e esquecido, já o que falta é a menina dos olhos. nossos e dos que nos observam.
o problema é que sempre falta alguma coisa. e todas as drogas e remédios modernos existem para domar esse leão do desejo próximo, do amanhã que nunca chega. a frustração de querer tanto e conseguir pouco desajusta a alma, desregula o pouco de sanidade que poderia servir como força para dar atenção ao óbvio. mas sociedade nenhuma avança sem desejos, sem o mercadinho dos grandes sonhos. com a exposição do tempo recortado em melhores momentos, das fotos de mural público, desse grande espetáculo da vida sem finalidade, somos filhos de um medo que nos asfixia, que paralisa o ímpeto de amar o óbvio.
o problema é que sempre falta alguma coisa. e todas as drogas e remédios modernos existem para domar esse leão do desejo próximo, do amanhã que nunca chega. a frustração de querer tanto e conseguir pouco desajusta a alma, desregula o pouco de sanidade que poderia servir como força para dar atenção ao óbvio. mas sociedade nenhuma avança sem desejos, sem o mercadinho dos grandes sonhos. com a exposição do tempo recortado em melhores momentos, das fotos de mural público, desse grande espetáculo da vida sem finalidade, somos filhos de um medo que nos asfixia, que paralisa o ímpeto de amar o óbvio.
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
diga alguma coisa
enquanto os olhos estão fechados, os dias não vão além de escolher um buraco na rotina, um pequeno espaço para mudar de cor, chamar de tábua de salvação, chamar de cura. todos podemos mentir que tudo parece bom, que é assim mesmo a vida, que é preciso crescer e aceitar que o destino tem jeito, é só colorir essas migalhas de tempo em que nos enganamos, viciados em coisas que passam, cegos por coisas que nem sabemos quais são, mas os outros parecem felizes, mais felizes que nós, não são, ninguém é até dar conta do inevitável, da morta súbita, do dia seguinte, muitas pequenas tarefas realizadas para nada, sem obra, sem glória pessoal, só toneladas de digitais vazias, ninguém é nada até se bastar. atravessar esta barreira expõe o quanto nos conformamos.
o forte tentaria fugir para longe de nós.
segunda-feira, janeiro 02, 2012
sexta-feira, dezembro 30, 2011
.012
um cara me disse que existe uma fenda no estádio do canindé para outra dimensão. abre uma viagem metafísica, chance de viver experiências diferentes dessas todas possíveis com a cabeça cansada do cotidiano.
lá, segundo uma lenda antiga, está enterrado um trator.
neste berço de histórias insanas, sinificado psicanalítico não falta para acreditar na possibilidade de mudança.
- precisamos enterrar tratores.
pensei alto, ainda em 2011.
quarta-feira, novembro 30, 2011
le récit de la journée
ela cantava com o toca-fitas.
sei
o tempo errou
me derrubou
me consumiu
me deixou surdo.
e o que ficou na ausência de futuro?
não sabia da premonição. não sabia de nada porque no dia em que se vive alguma coisa séria ninguém pensa na vida. as ruas do outro lado da cidade estavam vazias, os poucos bares pareciam gélidos, era uma sexta-feira que não aconteceria em qualquer outro lugar do mundo. ela ria. achando quase tudo inteligente. ele não fumava, ela dirigia.
- onde vamos agora?
- não sei, tá tudo fechado.
- a gente pode ficar só rodando e ouvindo música.
- nunca vi a metade dessas ruas, sabia?
- nem eu, mas tá legal.
pararam na margem do rio, ele bebia e a espiava um pouco, coisa de olhar rápido enquanto desatava algum assunto bobo. ela, do nada, andou até um bico de luz, abaixou-se e mijou no chão. parecia louca de tanto que ria voltando correndo da casinha abandonada.
- que foi isso? tá maluca?
- queria ir ao banheiro, ué. aqui não tinha.
ainda rindo por achar engraçada a situação, mas também por vê-lo desacreditar de tudo aquilo. beberam mais um pouco, ela contou uma história da mãe, outra do pai e ainda outra dos dois juntos. ele lembrou de um fita que faltava ouvir e voltaram ao carro. só duas ruas até as amendoeiras onde estacionaram definitivamente. ficaram no carro.
- sabe que eu falei de você para a cristina?
- que cristina? aquela sua amiga?
- é sim.
- falou o que?
- que gosto de você.
- você gosta de mim?
- gosto.
se eu pudesse te ver sem derreter
não iria haver
adeus.
continuou a girar no toca-fitas.
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