terça-feira, agosto 09, 2011

verbalizando

ela pensa, sente e não diz.

o buraco fica ali exposto, quase pulando da pele quando a dificuldade de dizer o necessário é explícita, praticamente vergonhosa. existe motivo, qualquer um entenderia, mesmo com a pena de perder o momento importante. ou adiar.

existe uma luz que vem da padaria, tudo ali parece preparado pelo destino para o momento que não vai acontecer, um pequeno movimento com corpo já seria suficiente para modificar toda a lista de impossibilidades levantadas ao longo das duas semanas até aquela noite.

quarta-feira, agosto 03, 2011

the day i lost my voice

I've got my life in a suitcase
I'm ready to run, run, run away

sexta-feira, julho 22, 2011

mulher, mulher

(cinco horas e quarenta e dois minutos)

- eu preciso ir embora.

- precisa mesmo?

- acho que preciso.

- acha que precisa ou acha que deve?

- acho que devo. sei lá o que eu acho, na verdade.

- então você vai?

- vou. minha viagem é logo pela manhã.

- e você quer ir embora?

- não faz sentido ficar aqui.

- você não respondeu se quer mesmo ir embora.

- não, não quero. mas vou.

quinta-feira, julho 07, 2011

não mora mais ali ou de natureza prosaica

alguém de onde não veio novidade, recado, sentimento, telefonema, carta, bilhete rabiscado, pedido de socorro, nada. não existe além das páginas amarelas. impossível imaginar vida reservada ao ponto da felicidade, do recolhimento, auto exílio que não me engana, ou vai querer me convencer que não existe por aí aquele buraco da angústia de qualquer ser humano normal, ainda mais com todo esse tédio do espaço vazio, branco e iluminado. sem filme, sem disco, sem nada. vai me dizer que tem tudo? vai falar que o que falta é compensado com amor e revista caras? no meio do nada qualquer coisa deve servir pra sala de espera, eu sei. a vida passa e tudo vai terminar em um acidente vascular grave. aqui ou aí. nem adianta duvidar.

ouvi dizer que na ilha só existe uma cadeira. as pessoas marcam, sentam, choram suas pitangas e pagam. e quem está do outro lado? também chora? também paga? bem que alguém poderia fazer o papel horroroso de me contar, atravessar essas suas histórias de felicidades e piratas, já que como outsider, preciso tirar o chapéu, que vitória incontestável em não existir, em silenciar transformando o mundo nessa budapeste que chove eternamente, sem notícias nem homens de coragem, só idiotas que falam demais. assim, exatamente como eu, sabe? parabéns, liberdade é a sua não-palavra.

segunda-feira, junho 13, 2011

I know this world is killing you

- o acaso sobre qualquer coisa, o acaso como religião.

você dirá e talvez nem saiba. o roteiro é meu.

e com seu vestido de festa podemos passar algumas horas na rua estreita que corta tantas outras ruas, maiores ou menores, a música que precisamos nos alto-falantes, abafada pelo ambiente que torna tudo mais desesperado e leve, porque vontade não é necessidade, vontade é a certeza do impossível na boca da realização, e ganhar um impossível de presente é valer-se de estar vivo e pronto para a vida, oportuno e transformador, aproveitando o que ninguém sabe que é maravilhoso como o diabo. tudo pode acontecer quando vontade é destino.

estar ali seria invadir madrugadas de um tempo que nos entenderia, como elvis costello cantando para você voltar do banheiro, rindo com a clara certeza do meu desejo, do subtexto que existe em querermos o mesmo, e rápido deixamos as coisas acontecerem como o tempo quiser escrever, querendo mesmo é que venha o inacreditável, capricho de quem aproveita o prazer a dois como realização individual da fúria, fome, sorte, não existe coisa óbvia ou passada que nos represente em vontade, não existe verdade que traduza querer demais, ansiar, babar como um louco que entra em teu corpo como o próprio demônio, com certeza e loucura de quem aperta a carne pensando no tempo, aquele da ânsia até este instante chegar, o dedo correr e a vontade passar.

desapertando, despedindo, realizando o corte simbólico.

- se você resolver continuar, eu quero.

ainda dirá.

quinta-feira, junho 02, 2011

quarta-feira, maio 18, 2011

conclusão

sou tarado pelo exercício amador da autopsicanálise.

segunda-feira, abril 25, 2011

organizado e pronto

um longo processo e estamos aqui, na curva antes de outro dia começar, azul, vivo, possível, se faço silêncio é só por enquanto, esperando cheguei muito longe e nada parece pouco visto da parte superior da cidade. o céu de prédios íntimos.

terça-feira, março 29, 2011

necessidades

necessário é dizer que podemos dirigir esse instante, fotografar em movimento as pequenas imperfeições de organismos vivos, existir é a possibilidade de realizar, o espaço em branco existe e é só preencher com vida ou palavras, um esforço relativamente simples, mais simples com palavras do que com vida, vida tem sangue, tempo, esforço, amor, ódio e um caminhão de pequenos desvios. com palavras o exercício é evitar o possível, só assim dirigimos nossos próprios sonhos, nossos quase filmes.

quinta-feira, março 03, 2011

o fim quase sempre volta

as cadeiras do cine íris na loud! em 2002, fanzines que devem estar em algum lugar no armário, dia dos namorados no odeon, tudo que a bunker foi e o show de ano novo em 2003, maldita de aniversário da pitty, a quem?!, o sintonia, ilusões de indústria fonográfica, os los hermanos inaugurando o odisséia, london burning ou o tempo normal em um bom início de século.

esse tipo de coisa.

o rio fanzine acabou. a maldita termina na segunda-feira. enfim, vida que segue que todo mundo trabalha muito cedo na terça.

terça-feira, março 01, 2011

processo de woody em anotação simples

você não consegue dizer: estou satisfeito com isso?

consigo. consigo dizer isso com um filme. consigo dizer: este acabou ficando um bom filme. na verdade não sei como as pessoas reagiram ao filme, porque faz anos que parei de conferir, me se gostaram, ótimo. se não gostaram, não me importa muito, não porque eu seja indiferente ou arrogante, mas porque aprendi tristemente que a aprovação deles não afeta a minha mortalidade. se faço alguma coisa que sinto que não é muito boa e o público aceita, até entusiasmado, isso não atenua em nada a minha sensação pessoal de fracasso. por isso o segredo é trabalhar, se divertir com o processo, não ler a respeito de si mesmo, quando as pessoas estiverem falando de cinema mudar a conversa para esportes, política ou sexo, e continuar suando a camisa.
além do dinheiro - nós somos ultra bem pagos -, as chamadas gratificações são todas vaidade e tomam tempo de trabalho criativo. mas, elas podem levar a ilusões de grandeza ou sensações errôneas de inferioridade.

(woody allen)

quinta-feira, janeiro 27, 2011

plástico bolha

por um minuto existiu silêncio, a parte de dentro, a da alma, sempre superando a casca, ela sabia que seria bem melhor ter permanecido calada, mas disse - eu ainda consigo - e soube que olhar nos olhos dele seria o último golpe desse momento da vida, não dava, e lembrou que um dia existiram tardes de sábados, onde todos os amigos eram tanto, e jogavam sinuca, e a vontade ainda era jovem, tempo urgente, mesmo sabendo que o impossível mora longe e nada mudaria, eles eram, todos eles, os bons e os quase ninguém, todos eram, ela disse e sentiu o estômago, infelizmente, pior ainda sofrer o arrastado final de um blues pensando que amanhã trabalha cedo, precisa ir ao mercado, ligar pra mãe, ou seja, ser adulta sozinha doía de véspera.

domingo, janeiro 23, 2011

inventário

fujo de análise e gostaria de sonhar mais, sem interpretação freudiana, porque viver não parece ser reflexo de pensamento, viver é atitude de diástole, abrir o coração a ser inundado por sangue, graças, é preciso agradecer a algo ou alguém essa bênção simples, que se repete por finitos anos e aproveitar-se disso talvez seja o foco dessa reflexão desnecessária, eu gosto de sol, de ir a praia com quem amo, de ver aquele amarelo que toma conta da descida da rua hermenegildo, eu gosto de onde vivo, de quem divido, do que como, e queria caminhadas breves até a próxima esquina dessa existência ínfima que é ser alguém com M no nome, que veio de um lugar quase sem sentido para os que não entendem as nuances, meus significados e signos, eu não estou afim de esclarecer, digo a mim mesmo, e não sentir necessidade disso é o próximo passo, pra poder ser só vida, largada no corpo, na pele que pode dizer mais que um cérebro, depósito simples de ansiedades, como um galpão do santo cristo, desses que já estão abandonados pela cidade há décadas, mas existem, e vão acumulando sujeira e todo tipo de inutilidade. uma bomba relógio deliciosa para os especialistas.

estar vazio é não depender do pensamento para ser feliz, cortar a ligação entre pensar e gerar prazer, porque o pouco de prazer não compensa o rio de frustrações, pelo analfabetismo emocional que é achar que determinadas atitudes vão gerar determinadas reações, nada volta porque nada existe, o nexo não é natural, ele é construído de acasos e elaborações, e é preciso deixar as coisas porque elas são o que elas são, só livrando-se da interferência que é esperar podemos elaborar nossas teses do que são nossas próprias vidas com mais propriedade, claro que é impossível ser só corpo e pulsação, mas também é inviável depender do pensamento pra qualificar tudo o que se vive, e aí está a armadilha de viver em 2011, esse poço de gente que não sabendo viver basicamente a própria vida, se agarra nos outros como em botes salva-vidas, somos infelizes por saber tão exatamente a razão da infelicidade, já que felicidade é descuido, quase nunca estamos livres e desimpedidos. digo então: para não refletir, eu tento ser.

e quase consigo.

domingo, janeiro 02, 2011

2011

outra vez o início. ciclos são a única razão de existir, então vamos tentar melhorar, porque tudo ainda é muito pouco, ninguém vai saber de véspera as dores e milagres desse ano um, bom e seminovo.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

# vocabulário afetivo

(abre)

patrícia: já são sete anos, aquela festa na casa do fred, eu não sabia exatamente o que era aquilo, conhecia a paula, só a paula e todo mundo falando comigo de primeira, muito simpáticos mas todos estranhos, engraçado que eu olhava pra ele e pensava que aquela menina, maria, devia ter alguma coisa extraordinária, na cama, ou entendia muito de cinema, de cinema brasileiro dos anos 60, sei lá, esse tipo de coisa... porque ele falava, falava, gesticulando, rindo, e eu olhando, acho que só eu via a cena toda, ela quase não dizia nada, ficava parada com um vestido bonito, amarelo, realmente era bonito, ficava assim, ouvindo o que ele contava, e olha, é verdade, eu queria estar naquela conversa, eu pensei que podia também dizer alguma coisa, que talvez ele nem olhasse mais tanto pro vestido amarelo, pros peitos dela, enfim, eu sabia que aquela conversa era bonita, mesmo de longe, mesmo com uma ponta de inveja, eu sabia que era um momento deles. nunca tinha pensando nisso assim antes de te contar, pelo menos não desse jeito, sabe? agora, nem sei se isso é realmente tão importante.

(corte)

maria: você veio assistir esse filme?

caio: ahhhh, olha, não é que agora eu gosto desse tipo de coisa... você ainda existe, maria?

maria: existo, mas demora um tempão pra contar. é chaaato...

caio: quer tomar um café? o filme vai demorar.

maria: tá, pode ser. mas do lado de fora, tudo bem?

caio: tudo bem.

domingo, novembro 28, 2010

cinco anos

este espaço-hotel completa cinco anos hoje. de 2005 pra cá a vida mudou muito, o texto melhorou, a forma caminhou pro gosto e quem voltou talvez continue por aqui nos próximos cinco anos. do futuro ninguém sabe, mas espero que seja longo e pouco chato. em cores, narrativo e ruidoso. tudo ainda deve acontecer. é claro já que quero.

quarta-feira, novembro 10, 2010

ponto de corte

esse espaço existe e eu poderia dizer as mil coisas que passam pela cabeça essa semana, melhor só falar que chegamos ao fim da quinta temporada com a emissora prometendo contrato para mais cinco anos de vida. o próximo ano promete com nova iorque, hotel chelsea e o amontoado de coisas que a gente não escolhe e nem espera da vida, pra quem não esperava nada do futuro, a vida mostrou o que pode e o que não pode, ou seja, nada é previsível, viver é esperar que as coisas comecem e terminem, você querendo ou não, existe um trajeto no futuro que te dirá respeito, e mesmo olhando torto, precisa ser enfrentado, vivido e encarado como oportunidade de mudar o que nos aprisiona, as dores são temidas por termos que enfrentar a liberdade de fazer o quisermos da vida. eu faço o que preciso, eu quero, eu penso e talvez o subtexto da sexta temporada seja "o que fazer com isso", afinal utilidade é um tema importante, mas vamos com calma.

sexta-feira, outubro 29, 2010

mais do mesmo

talvez não fique muito claro, mas precisamos é de continuidade. variações e ideias são eventos desconexos se não existe uma trajetória, a linha reta que define o que é curva, loucos que estamos por realizar não enxergamos o básico, viver é escrever uma história simples, poucos personagens, escolhas definitivas, a grande transformação é reinventar o mesmo espaço, encontrar cores mais bonitas para o que parece destinado ao fracasso, afinal, essa ordem natural de um dia depois do outro, 24hs e depois tudo começa outra vez, veio o dia, veio a noite, dia, noite, dia, noite e todo ciclo é uma explicação básica do ato de viver, foi ótimo, foi terrível, feliz, triste ou não emocionou, passou como um dia vazio desses que a vida está cheia, mas vai se repetir, é inevitável como dia e noite, como qualquer alto e qualquer baixo, viver é inevitável até certo ponto, existe uma escolha, mas outro dia virá com ou sem você, e já que voltamos ao início todos os dias, porque não tentar entender como se escreve um roteiro mais inteligente para o nosso inevitável, vivendo até o fundo tudo que é necessário e assumindo as responsabilidades e contas de tudo que se quer, escolhe, pensa e faz. esse papo de não viver o amor ou ódio é medo, estamos covardes, vazios, e digo tudo isso só pra lembrar que pensar a razão das coisas talvez evite uma vida desnecessária, porque a morte é um desses outros inevitáveis, o caminhão do lixo te atropela e amanhã você não vale nem três linhas compradas na décima nona página do jornal do seu estado, não é, não foi, não soube, nem teve quem pagasse as linhas, nem quem sofresse lá muita coisa, ninguém chorou, não comoveu, nem vai ser lembrado um ano depois em missa. então talvez não custe a reflexão, de que na hora da morte, algumas coisas deverão valer a pena: tudo que fez, os filhos que deixou, o rosto de alguém que dividiu. nada disso é pouco, pode acreditar em mim.

terça-feira, outubro 26, 2010

you can stay here

perdido entre milhares de opções que a vida oferece, ele só consegue pensar que não lembra mais sonho algum, um turbilhão de imagens passam pelo cérebro toda noite e o máximo que sobra de memória consciente são frases curtas em português e repreensões, nada que dure mais de três segundos de sonho, dizem uma eternidade de vida, mas o que parecia vazio é uma mente que transborda informação, precisando de limpeza, de cor, de conseguir desenhar aquele rosto necessário e as palavras que faltaram de um texto que merece ser escrito desde que a vida deixou de ser uma vidinha infantil. quer escrever que estar ali parado é esperar o momento certo de abrir a porta para o destino, já que no aleatório, sonho é destino, então nada mais justo que sonhar, como vivência e metáfora, coisa de colocar o rosto colado na janela onde a vida pode escapulir, e deixar a sorte trabalhando, criando personagens úteis para esse enredo, onde realmente é possível acreditar e tudo vai correndo bem, lento e agridoce, para no final a vida rodar, rodar, rodar e o impossível ser o que se espera dele. sonho vazio e passado.

terça-feira, outubro 19, 2010

sono-para-sonhos

nesse espaço de descontrole, durante possíveis oito horas, a alma repousa, vagueia, deixa ser aquela imagem impossível de tão próxima, alguns bairros, minutos nem chegam a horas, frames piscando até que uma sequência realmente exista, rodada em preto e branco, cores costumam vir com o som mas são raras, o ruído dói no corpo, expulsa a alma pra fora, e aqui existe o meio do caminho, o momento em que a alma volta mas a carcaça fica vazia, querendo-a de volta, olham-se, e a respiração é a cola que une os extremos, re-início de processo, filme, narrativa, tudo trabalhando pra mostrar o impossível: desejo irrealizado, idealizado, morte, pequena morte, tudo que é direto ou desconexo, pode ser, mas a gente nunca sabe o que está por vir, e elas voltam, elas, bem definido assim, o que assombra, o que atormenta, o que transforma. querendo dormir qualquer um é capaz de um acerto de contas. estranho e inevitável, necessário pra quem sonha, o sonho, a metáfora justa da batalha. ainda que com algum medo do escuro, é fechando os olhos que se abre a lata da alma. vamos tirando a armadura. não amanheceu. é hora.