quinta-feira, janeiro 27, 2011
plástico bolha
por um minuto existiu silêncio, a parte de dentro, a da alma, sempre superando a casca, ela sabia que seria bem melhor ter permanecido calada, mas disse - eu ainda consigo - e soube que olhar nos olhos dele seria o último golpe desse momento da vida, não dava, e lembrou que um dia existiram tardes de sábados, onde todos os amigos eram tanto, e jogavam sinuca, e a vontade ainda era jovem, tempo urgente, mesmo sabendo que o impossível mora longe e nada mudaria, eles eram, todos eles, os bons e os quase ninguém, todos eram, ela disse e sentiu o estômago, infelizmente, pior ainda sofrer o arrastado final de um blues pensando que amanhã trabalha cedo, precisa ir ao mercado, ligar pra mãe, ou seja, ser adulta sozinha doía de véspera.
domingo, janeiro 23, 2011
inventário
fujo de análise e gostaria de sonhar mais, sem interpretação freudiana, porque viver não parece ser reflexo de pensamento, viver é atitude de diástole, abrir o coração a ser inundado por sangue, graças, é preciso agradecer a algo ou alguém essa bênção simples, que se repete por finitos anos e aproveitar-se disso talvez seja o foco dessa reflexão desnecessária, eu gosto de sol, de ir a praia com quem amo, de ver aquele amarelo que toma conta da descida da rua hermenegildo, eu gosto de onde vivo, de quem divido, do que como, e queria caminhadas breves até a próxima esquina dessa existência ínfima que é ser alguém com M no nome, que veio de um lugar quase sem sentido para os que não entendem as nuances, meus significados e signos, eu não estou afim de esclarecer, digo a mim mesmo, e não sentir necessidade disso é o próximo passo, pra poder ser só vida, largada no corpo, na pele que pode dizer mais que um cérebro, depósito simples de ansiedades, como um galpão do santo cristo, desses que já estão abandonados pela cidade há décadas, mas existem, e vão acumulando sujeira e todo tipo de inutilidade. uma bomba relógio deliciosa para os especialistas.
estar vazio é não depender do pensamento para ser feliz, cortar a ligação entre pensar e gerar prazer, porque o pouco de prazer não compensa o rio de frustrações, pelo analfabetismo emocional que é achar que determinadas atitudes vão gerar determinadas reações, nada volta porque nada existe, o nexo não é natural, ele é construído de acasos e elaborações, e é preciso deixar as coisas porque elas são o que elas são, só livrando-se da interferência que é esperar podemos elaborar nossas teses do que são nossas próprias vidas com mais propriedade, claro que é impossível ser só corpo e pulsação, mas também é inviável depender do pensamento pra qualificar tudo o que se vive, e aí está a armadilha de viver em 2011, esse poço de gente que não sabendo viver basicamente a própria vida, se agarra nos outros como em botes salva-vidas, somos infelizes por saber tão exatamente a razão da infelicidade, já que felicidade é descuido, quase nunca estamos livres e desimpedidos. digo então: para não refletir, eu tento ser.
e quase consigo.
estar vazio é não depender do pensamento para ser feliz, cortar a ligação entre pensar e gerar prazer, porque o pouco de prazer não compensa o rio de frustrações, pelo analfabetismo emocional que é achar que determinadas atitudes vão gerar determinadas reações, nada volta porque nada existe, o nexo não é natural, ele é construído de acasos e elaborações, e é preciso deixar as coisas porque elas são o que elas são, só livrando-se da interferência que é esperar podemos elaborar nossas teses do que são nossas próprias vidas com mais propriedade, claro que é impossível ser só corpo e pulsação, mas também é inviável depender do pensamento pra qualificar tudo o que se vive, e aí está a armadilha de viver em 2011, esse poço de gente que não sabendo viver basicamente a própria vida, se agarra nos outros como em botes salva-vidas, somos infelizes por saber tão exatamente a razão da infelicidade, já que felicidade é descuido, quase nunca estamos livres e desimpedidos. digo então: para não refletir, eu tento ser.
e quase consigo.
domingo, janeiro 02, 2011
sexta-feira, dezembro 17, 2010
# vocabulário afetivo
(abre)
patrícia: já são sete anos, aquela festa na casa do fred, eu não sabia exatamente o que era aquilo, conhecia a paula, só a paula e todo mundo falando comigo de primeira, muito simpáticos mas todos estranhos, engraçado que eu olhava pra ele e pensava que aquela menina, maria, devia ter alguma coisa extraordinária, na cama, ou entendia muito de cinema, de cinema brasileiro dos anos 60, sei lá, esse tipo de coisa... porque ele falava, falava, gesticulando, rindo, e eu olhando, acho que só eu via a cena toda, ela quase não dizia nada, ficava parada com um vestido bonito, amarelo, realmente era bonito, ficava assim, ouvindo o que ele contava, e olha, é verdade, eu queria estar naquela conversa, eu pensei que podia também dizer alguma coisa, que talvez ele nem olhasse mais tanto pro vestido amarelo, pros peitos dela, enfim, eu sabia que aquela conversa era bonita, mesmo de longe, mesmo com uma ponta de inveja, eu sabia que era um momento deles. nunca tinha pensando nisso assim antes de te contar, pelo menos não desse jeito, sabe? agora, nem sei se isso é realmente tão importante.
(corte)
maria: você veio assistir esse filme?
caio: ahhhh, olha, não é que agora eu gosto desse tipo de coisa... você ainda existe, maria?
maria: existo, mas demora um tempão pra contar. é chaaato...
caio: quer tomar um café? o filme vai demorar.
maria: tá, pode ser. mas do lado de fora, tudo bem?
caio: tudo bem.
patrícia: já são sete anos, aquela festa na casa do fred, eu não sabia exatamente o que era aquilo, conhecia a paula, só a paula e todo mundo falando comigo de primeira, muito simpáticos mas todos estranhos, engraçado que eu olhava pra ele e pensava que aquela menina, maria, devia ter alguma coisa extraordinária, na cama, ou entendia muito de cinema, de cinema brasileiro dos anos 60, sei lá, esse tipo de coisa... porque ele falava, falava, gesticulando, rindo, e eu olhando, acho que só eu via a cena toda, ela quase não dizia nada, ficava parada com um vestido bonito, amarelo, realmente era bonito, ficava assim, ouvindo o que ele contava, e olha, é verdade, eu queria estar naquela conversa, eu pensei que podia também dizer alguma coisa, que talvez ele nem olhasse mais tanto pro vestido amarelo, pros peitos dela, enfim, eu sabia que aquela conversa era bonita, mesmo de longe, mesmo com uma ponta de inveja, eu sabia que era um momento deles. nunca tinha pensando nisso assim antes de te contar, pelo menos não desse jeito, sabe? agora, nem sei se isso é realmente tão importante.
(corte)
maria: você veio assistir esse filme?
caio: ahhhh, olha, não é que agora eu gosto desse tipo de coisa... você ainda existe, maria?
maria: existo, mas demora um tempão pra contar. é chaaato...
caio: quer tomar um café? o filme vai demorar.
maria: tá, pode ser. mas do lado de fora, tudo bem?
caio: tudo bem.
domingo, novembro 28, 2010
cinco anos
este espaço-hotel completa cinco anos hoje. de 2005 pra cá a vida mudou muito, o texto melhorou, a forma caminhou pro gosto e quem voltou talvez continue por aqui nos próximos cinco anos. do futuro ninguém sabe, mas espero que seja longo e pouco chato. em cores, narrativo e ruidoso. tudo ainda deve acontecer. é claro já que quero.
quarta-feira, novembro 10, 2010
ponto de corte
esse espaço existe e eu poderia dizer as mil coisas que passam pela cabeça essa semana, melhor só falar que chegamos ao fim da quinta temporada com a emissora prometendo contrato para mais cinco anos de vida. o próximo ano promete com nova iorque, hotel chelsea e o amontoado de coisas que a gente não escolhe e nem espera da vida, pra quem não esperava nada do futuro, a vida mostrou o que pode e o que não pode, ou seja, nada é previsível, viver é esperar que as coisas comecem e terminem, você querendo ou não, existe um trajeto no futuro que te dirá respeito, e mesmo olhando torto, precisa ser enfrentado, vivido e encarado como oportunidade de mudar o que nos aprisiona, as dores são temidas por termos que enfrentar a liberdade de fazer o quisermos da vida. eu faço o que preciso, eu quero, eu penso e talvez o subtexto da sexta temporada seja "o que fazer com isso", afinal utilidade é um tema importante, mas vamos com calma.
sexta-feira, outubro 29, 2010
mais do mesmo
talvez não fique muito claro, mas precisamos é de continuidade. variações e ideias são eventos desconexos se não existe uma trajetória, a linha reta que define o que é curva, loucos que estamos por realizar não enxergamos o básico, viver é escrever uma história simples, poucos personagens, escolhas definitivas, a grande transformação é reinventar o mesmo espaço, encontrar cores mais bonitas para o que parece destinado ao fracasso, afinal, essa ordem natural de um dia depois do outro, 24hs e depois tudo começa outra vez, veio o dia, veio a noite, dia, noite, dia, noite e todo ciclo é uma explicação básica do ato de viver, foi ótimo, foi terrível, feliz, triste ou não emocionou, passou como um dia vazio desses que a vida está cheia, mas vai se repetir, é inevitável como dia e noite, como qualquer alto e qualquer baixo, viver é inevitável até certo ponto, existe uma escolha, mas outro dia virá com ou sem você, e já que voltamos ao início todos os dias, porque não tentar entender como se escreve um roteiro mais inteligente para o nosso inevitável, vivendo até o fundo tudo que é necessário e assumindo as responsabilidades e contas de tudo que se quer, escolhe, pensa e faz. esse papo de não viver o amor ou ódio é medo, estamos covardes, vazios, e digo tudo isso só pra lembrar que pensar a razão das coisas talvez evite uma vida desnecessária, porque a morte é um desses outros inevitáveis, o caminhão do lixo te atropela e amanhã você não vale nem três linhas compradas na décima nona página do jornal do seu estado, não é, não foi, não soube, nem teve quem pagasse as linhas, nem quem sofresse lá muita coisa, ninguém chorou, não comoveu, nem vai ser lembrado um ano depois em missa. então talvez não custe a reflexão, de que na hora da morte, algumas coisas deverão valer a pena: tudo que fez, os filhos que deixou, o rosto de alguém que dividiu. nada disso é pouco, pode acreditar em mim.
terça-feira, outubro 26, 2010
you can stay here
perdido entre milhares de opções que a vida oferece, ele só consegue pensar que não lembra mais sonho algum, um turbilhão de imagens passam pelo cérebro toda noite e o máximo que sobra de memória consciente são frases curtas em português e repreensões, nada que dure mais de três segundos de sonho, dizem uma eternidade de vida, mas o que parecia vazio é uma mente que transborda informação, precisando de limpeza, de cor, de conseguir desenhar aquele rosto necessário e as palavras que faltaram de um texto que merece ser escrito desde que a vida deixou de ser uma vidinha infantil. quer escrever que estar ali parado é esperar o momento certo de abrir a porta para o destino, já que no aleatório, sonho é destino, então nada mais justo que sonhar, como vivência e metáfora, coisa de colocar o rosto colado na janela onde a vida pode escapulir, e deixar a sorte trabalhando, criando personagens úteis para esse enredo, onde realmente é possível acreditar e tudo vai correndo bem, lento e agridoce, para no final a vida rodar, rodar, rodar e o impossível ser o que se espera dele. sonho vazio e passado.
terça-feira, outubro 19, 2010
sono-para-sonhos
nesse espaço de descontrole, durante possíveis oito horas, a alma repousa, vagueia, deixa ser aquela imagem impossível de tão próxima, alguns bairros, minutos nem chegam a horas, frames piscando até que uma sequência realmente exista, rodada em preto e branco, cores costumam vir com o som mas são raras, o ruído dói no corpo, expulsa a alma pra fora, e aqui existe o meio do caminho, o momento em que a alma volta mas a carcaça fica vazia, querendo-a de volta, olham-se, e a respiração é a cola que une os extremos, re-início de processo, filme, narrativa, tudo trabalhando pra mostrar o impossível: desejo irrealizado, idealizado, morte, pequena morte, tudo que é direto ou desconexo, pode ser, mas a gente nunca sabe o que está por vir, e elas voltam, elas, bem definido assim, o que assombra, o que atormenta, o que transforma. querendo dormir qualquer um é capaz de um acerto de contas. estranho e inevitável, necessário pra quem sonha, o sonho, a metáfora justa da batalha. ainda que com algum medo do escuro, é fechando os olhos que se abre a lata da alma. vamos tirando a armadura. não amanheceu. é hora.
segunda-feira, outubro 18, 2010
segunda-feira, outubro 04, 2010
vazio, simples, seco
quando tudo deveria fazer sentido, não faz. o caminho ainda é o meio e o fim ao mesmo tempo, existe a possibilidade de andar a esmo, ou com alguma finalidade, ou seja, tudo ainda pode ser. como sempre foi. um passeio apaixonado pelas ruas esquecidas do cais do porto no rio, mooca, ou qualquer lugar de velhas fábricas e galpões abandonados, por lá ainda existem pessoas, amor, ódio e tempo. por lá ainda podemos existir. de mãos dadas/em silêncio.
quinta-feira, setembro 30, 2010
setembro de passagem
ele pode dizer, pensar, escrever, fazer uma música, pode tentar mudar, evoluir, re-começar, pode fazer o que quiser, tudo ainda não foi feito, nem dito. nada existe. depois de uma grande limpeza, a vida começa outra vez. lava o rosto, o corpo, a alma. e tudo que já foi será completamente irrelevante agora. agora, palavra única e óbvia.
terça-feira, setembro 21, 2010
a parábola do encontro e do medo
"não, a lua é um deserto - desta esfera árida partem todos os discursos e poemas; e todas as viagens através de florestas, batalhas, tesouros, banquetes, alcovas, nos trazem de volta pra cá: o centro de um horizonte vazio." (ítalo calvino)
existe um segredo, quase mistério, e tudo que for feito para obstruí-lo é naturalmente desfavorável a quem precisa descobrir o caminho para a solução simples do enigma. nada deveria ser dito, muito pelo contrário, vive-se um dia, depois outro dia, e mais uma série de meses, e vivendo o que lhe é oferecido ao acaso aparece, imediatamente, como um solução viável. o jeito, ou o único jeito é o óbvio, o prazer mais banal entre os mais banais, a experiência, vocês dois, como uma música dos beatles, lírica quando é paul, ou quando uns dos dois representa paul no baralho do acaso, desequilibrada quando é john, ou quando na força, qualquer um de vocês for john lennon. entendeu? não vamos além da explosão natural, do que já acontece quando se encontram, do que já existe e não precisa ser discutido para evoluir, não pode melhorar porque já é maravilhoso, mas é tão isso que parece trágico ser tão explícito, talvez as pessoas não consigam dizer, ou melhor, não consigam apenas viver, aí vocês dois vão refletir, elaborar, criar sentidos e possibilidades baseadas em aprendizados prévios, quando todo aprendizado como esse não é mais que uma armadilha, que impede o agora, que atravanca o caminho, e onde tudo era natural e espontâneo cria-se um buraco totalmente desnecessário, um buraco que afasta pontos tão próximos, vocês dois, corações ridículos de tão disparados, um precisando um pouco do outro agora, momento de bênção, pensem bem e voltem ao rumo, que está aí, estampado em todos os lugares por onde passaram, cinema, bar, rua e escada, está no que não amedronta ninguém de viver, não tenham pressa, não, por favor. um horizonte vazio é a certeza de poder tudo, não tenham medo de nada.
existe um segredo, quase mistério, e tudo que for feito para obstruí-lo é naturalmente desfavorável a quem precisa descobrir o caminho para a solução simples do enigma. nada deveria ser dito, muito pelo contrário, vive-se um dia, depois outro dia, e mais uma série de meses, e vivendo o que lhe é oferecido ao acaso aparece, imediatamente, como um solução viável. o jeito, ou o único jeito é o óbvio, o prazer mais banal entre os mais banais, a experiência, vocês dois, como uma música dos beatles, lírica quando é paul, ou quando uns dos dois representa paul no baralho do acaso, desequilibrada quando é john, ou quando na força, qualquer um de vocês for john lennon. entendeu? não vamos além da explosão natural, do que já acontece quando se encontram, do que já existe e não precisa ser discutido para evoluir, não pode melhorar porque já é maravilhoso, mas é tão isso que parece trágico ser tão explícito, talvez as pessoas não consigam dizer, ou melhor, não consigam apenas viver, aí vocês dois vão refletir, elaborar, criar sentidos e possibilidades baseadas em aprendizados prévios, quando todo aprendizado como esse não é mais que uma armadilha, que impede o agora, que atravanca o caminho, e onde tudo era natural e espontâneo cria-se um buraco totalmente desnecessário, um buraco que afasta pontos tão próximos, vocês dois, corações ridículos de tão disparados, um precisando um pouco do outro agora, momento de bênção, pensem bem e voltem ao rumo, que está aí, estampado em todos os lugares por onde passaram, cinema, bar, rua e escada, está no que não amedronta ninguém de viver, não tenham pressa, não, por favor. um horizonte vazio é a certeza de poder tudo, não tenham medo de nada.
terça-feira, agosto 31, 2010
comum a todo mundo
qualquer um poderia vir aqui e dizer que viver é simples, eu mesmo já o fiz por muitas vezes, e também por muitas vezes disse que não é bem assim. um dia você acorda estranho, pensa bem, repassa na cabeça qualquer cena do passado e tudo vai depender mesmo é de uma coisa inexplicável que fica perdida entre o cérebro e o coração, você não é aquele do espelho, não se reconhece porque quer movimento, quer virar outro, a foto da frente na sequência natural da vida, mas não entende a real necessidade de transformar-se, será mesmo que só a mudança faz sentido? ou mudamos por incapacidade de sermos estáveis, mais profundos, por não conseguir aproveitar e aprender com o que recebemos da vida, de que vale mudar e mudar e mudar e nunca ser nada mais elaborado, será que uma colagem de pequenos momentos resolve a verdadeira necessidade que é resolver-se com quem você realmente é, porque tá parecendo que essa coisa de mudar tem a ver com colocar a culpa que é sua na conta dos outros, das coisas, do dia, da cidade, da falta de dinheiro pra comprar o mundo, e isso não vai mudar nunca, sempre vai faltar alguma coisa, sempre pode ser diferente, em outro lugar com outra pessoa. e aí? aproveita agora?
quarta-feira, agosto 18, 2010
andando
ainda seguindo o que pode ser. as portas que estão fechadas, mesmo com a cara do futuro, não parecem uma boa idéia. quando a única vontade é sentida junto a vertigem de quase rolar na calçada, o momento é mesmo de silêncio e reflexão. queria dizer que as coisas não mudam, mas fica impossível evitar a beleza que vai fugindo o tempo todo delas, hoje existe, amanhã nem tanto, depois já não se lembra, e quando a sensibilidade se dá conta, a vida é outra, tudo diferente, outra cara, outra coisa, outra cor, e não adianta insistir, o jeito é deixar-se mudar junto, adaptar o necessário, porque só assim acompanho a metamorfose que faz parte de mim, entristecer é ficar fotografado no passado, aquele que já foi, e não adianta empurrar a carcaça pro futuro, perdendo a oportunidade de ser a pessoa certa no seu momento certo, porque a vontade precisa mudar e o dono fica quase sempre parado, ofuscado por uma certeza antiga e desnecessária, a cabeça de ontem no homem de hoje, perdendo o passo de tudo que o peito quer, mas sendo assim coerente. o modelo do que se espera de alguém. que bela cagada. muito melhor seria ser nada.
terça-feira, agosto 03, 2010
filme de amor (90's)
- eu queria mesmo sair para um lugar como esse.
- legal aqui, não é?
- muito, o jardim parece perdido no tempo.
os dois viram filmes por toda a tarde, tomaram café durante a madrugada passada na loja 24 horas, esquina com a rua sem saída próxima ao apartamento dela, conversaram sobre smiths, cure e coisas de quem já passou dos vinte e cinco. precisavam disso, de tempo, sofá e filmes, comida, conversa, precisavam de um encontro. aconteceu há três dias no jardim botânico.
- você quer fazer mais alguma coisa?
- não. vamos comprar cigarros e voltar lá pra casa?
- vamos.
- legal aqui, não é?
- muito, o jardim parece perdido no tempo.
os dois viram filmes por toda a tarde, tomaram café durante a madrugada passada na loja 24 horas, esquina com a rua sem saída próxima ao apartamento dela, conversaram sobre smiths, cure e coisas de quem já passou dos vinte e cinco. precisavam disso, de tempo, sofá e filmes, comida, conversa, precisavam de um encontro. aconteceu há três dias no jardim botânico.
- você quer fazer mais alguma coisa?
- não. vamos comprar cigarros e voltar lá pra casa?
- vamos.
domingo, julho 25, 2010
do envelhecer amando
o amor aqui em casa amadurece de forma parecida ao crescimento das flores que cobrem a janela. a do ano passado está inesperadamente grande, forte e colorida. as desse ano precisam de mais espaço e vão, aos poucos, ocupando vasos maiores. você dorme aqui ao lado e já é hora de ir te acordar. evoluímos e crescemos juntos.
quinta-feira, julho 22, 2010
sonho número 401
é uma vontade tão descontrolada, coisa de não saber como algo fora de questão pode virar um pequeno hábito, que aumenta a cada passo em direção ao objeto, como uma promessa do impossível, cinza no fundo e manchas amarelas e azuis, como um vestido de noite contra a parede vermelha, quase isso, ou exatamente. para palavras que se quer usar, ruas possíveis, conversas intermináveis, as possibilidades são sempre a ruína de qualquer pobre diabo, faminto, grudado ao corpo mas correndo por fora dele, com o espaço inominável do cérebro onde se guarda esse tipo de coisa, lugar que ferve, lugar que arde na bagunça de ser a expressão descontrolada do inconsciente, que deveria dormir em paz, que nem deveria existir, escapando pode ser perigoso, destrutivo, um horror para a sanidade do óbvio, mas colírio para a sanidade da alma.
quarta-feira, julho 21, 2010
pequeno dicionário de vidas
ele chega por volta das dezoito horas, descendo a paulista devagar, ainda existe luz do sol, mesmo com as lâmpadas aquecidas para uma longa madrugada, quer vê-la porque está fora do juízo, porque não pensar também faz parte das escolhas possíveis, as coisas são o que são, e ninguém pensa na hora de fazer exatamente o que quer fazer, ou pelo menos não deveria, ele aceita a consequência e aproveita o momento para ser o dono da situação, escolher com que tipo de crueldade vai conduzi-la até o hotel e ser o homem que ela precisa. afinal, ela quer e toda necessidade é urgente. faça a sua vontade. com o ódio que ela merece e seu profundo e inevitável prazer. os dois ganham.
sexta-feira, julho 09, 2010
meu abrigo
já vivemos tanto, por beijos, por gritos, por ódio temporário e amor contínuo, mas quase nunca conseguimos não depender um do outro, você precisa estar aqui pra me fazer melhor, minha mulher, esposa, companheira, nunca duvide da força que me move até você, da falta que sinto antes mesmo de pensar, do como essa casa só existe porque você move a nossa vontade, organiza a minha falta de jeito, é grande até quando precisa de mim. eu que sempre te quis, eu que não sabia que a vida era tão fácil até a vida virar metade você, olha agora, percebe o quanto tudo que fizemos tornou o amor natural, uma obviedade de te procurar ao lado do meu corpo, no quarto, no banheiro, no tempo que nos levou de uma janela sem cortinas, de uma cama curta a um longo abraço, e estamos aqui, não precisando pensar no amor, nem na palavra, pensando em livros, em trabalho, em vida após os 22, ou 28 no meu caso, somos maiores porque somos dois, e não tenho medo nem vergonha de dizer que preciso de você em casa, dos seus conselhos, sua raiva, preciso para ter certeza que existo e faço sentindo, que na morte, quando o filme passar editado pela cabeça só vai dar você, em cores, fotografada na luz do jardim da chácara do céu às quatro da tarde, entre o amarelo e o verde, um dia inteiro feliz, como sair da água do mar naquela tarde no leblon, ou sentir sua mão na cabeça enquanto vomitava voltando da morte com o sou nascendo no ano novo. meus buracos, meu orgulho, tudo que me diz respeito vai passando por você e entendo isso dia por dia, como que narrado pela sua voz. eu só sou o que você é comigo. uma coisa só. óbvia, direta e indissociável.
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