Não lembro a roupa que você usava no sonho, mas parecia a mesma de 2003 - pelo menos a que ainda ficou na minha memória. Você entrou pela porta aqui de casa me acordando e disse baixinho que ainda era cedo. Eu olhei o céu e concordei. Então você deitou na cama comigo, dividimos o cobertor, apagamos a luz e dormimos um pouco.
Você acordou querendo transar, exatamente como sempre costumava acontecer, e eu disse que tinha aula daqui a pouco. Engraçado pensar que foi um sonho, mas poderia ter sido o passado, afinal o passado foi mais ou menos assim, não é verdade?
Você me disse pra matar a primeira aula. Aceitei. Chegar às 8:40 pareceu bem razoável para o nosso reencontro, e nessa hora senti saudade de te abraçar como minha mulher. Talvez eu fosse jovem demais naquela época. Hoje aposto que foi o medo quem nos separou.
O seu medo de perder e o meu medo de encontrar. Engraçado, você perdeu e eu não encontrei, a vida até que parece justa em perspectiva. Acordei e não era 2003, quem sabe não te vejo voltar por aquela porta.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
terça-feira, fevereiro 20, 2007
Yellow Coffee Break
Eu estava doente e não queria atravessar a avenida paulista inteira só pra tomar um café. Era dor no estômago, era tédio, era agonia mesmo e pronto. Mas ela não desistiu de tocar a campainha com aquele vestido florido amarelo, gritando que lá fora o céu estava cinza e a gente podia caminhar de braços cruzados pelo centrão e rir, e tomar algumas dezenas de xícaras de café amargo, e fumar um cigarro sentados naquela sacada da cafeteria, ah, e além de tudo, ela queria mostrar os sapatos novos. Finos, amarelos e lindos. A menina sorri.
E pronto. Resolvi abrir a porta e vê-la sorrir de orelha a orelha dizendo pra não esquecer do casaco, que com ele me achava o cara mais bonito e a gente parecia casal da nouvelle vague cruzando São Paulo, cruzando a Augusta entre os garotos e garotas do hardcore, e os japoneses, e os góticos, e os loucos. E todo mundo na rua olhando pra nós, gente que não ri geralmente, ela acha, - mas a gente ri, sabe? - A gente ri grande, a gente ri de tudo e aperta o passo quando a chuva aumenta, e se esconde, e se abraça sob o nosso único guarda-chuva. Não que isso seja tão diferente, mas é nosso, e todo mundo que só assiste pelo menos pensa em viver alguma coisa assim também, um dia, ou lembra que já viveu, sei lá, mas é nosso, e é agora. Vamos?
E pronto. Resolvi abrir a porta e vê-la sorrir de orelha a orelha dizendo pra não esquecer do casaco, que com ele me achava o cara mais bonito e a gente parecia casal da nouvelle vague cruzando São Paulo, cruzando a Augusta entre os garotos e garotas do hardcore, e os japoneses, e os góticos, e os loucos. E todo mundo na rua olhando pra nós, gente que não ri geralmente, ela acha, - mas a gente ri, sabe? - A gente ri grande, a gente ri de tudo e aperta o passo quando a chuva aumenta, e se esconde, e se abraça sob o nosso único guarda-chuva. Não que isso seja tão diferente, mas é nosso, e todo mundo que só assiste pelo menos pensa em viver alguma coisa assim também, um dia, ou lembra que já viveu, sei lá, mas é nosso, e é agora. Vamos?
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Blog do Klaus
Sempre que passar por aqui e quiser continuar lendo, aproveite o embalo e a oportunidade pra visitar o blog do Klaus:
http://quarentaedois.blogsome.com
O camarada entrou em uma fase importante de textos e vale a pena acompanhar.
http://quarentaedois.blogsome.com
O camarada entrou em uma fase importante de textos e vale a pena acompanhar.
sábado, fevereiro 10, 2007
ParaAna ou EsqueçamosaEpistemologia.
Entenda meu corpo, batimentos por minuto,
minha história, meus quilômetros por hora.
Entenda meu canto, meus tantos por cento,
meus contos de réis, tantos por mês.
Entenda meu corpo, sal e litros d'água,
em centímetros ao cubo, em silêncio, por favor.
minha história, meus quilômetros por hora.
Entenda meu canto, meus tantos por cento,
meus contos de réis, tantos por mês.
Entenda meu corpo, sal e litros d'água,
em centímetros ao cubo, em silêncio, por favor.
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
The Alcoholic Republic of Letters
"Neste século, poder-se-ia afirmar com segurança que uma porcentagem significativa de escritores norte-americanos é formada de alcoólatras em menor ou maior grau; explicá-lo é coisa que deixo para os médicos curandeiros. O alcoolismo acabou com as carreiras de Hemingway, Fitzgerald e Faulkner, para citar três romancistas que estiveram na moda, no país, em meados do século. Por piedade em relação aos descendentes e guardiões das chamas ainda bruxuleantes de personagens literários outrora gloriosos, deixo de citar outros nomes. Por beber demais, Hemingway não conseguiu escrever nada de bom no final da vida; pela mesma razão, Fitzgerald morreu aos 44 anos e William Faulkner de As I Lay Dying virou fábula."
* Gore Vidal em "De fato e de ficção - Ensaios contra a corrente." - Companhia das Letras - 1987.
* Gore Vidal em "De fato e de ficção - Ensaios contra a corrente." - Companhia das Letras - 1987.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Chuva nas pedras portuguesas.
Rua do Ouvidor. Ele de chapéu do panamá e ela de vestido em tons amarelados. Ele acende o cigarro e começa a contar o sonho estranho que teve na noite passada, enquanto ela observa com o pensamento distante dali, talvez seja só medo da certeza, ela conclui. Os carros passam lentos e o vento lambe a bandeira turca a meio palmo no outro lado da rua. Começa a garoar fino e ele lembra que isso sempre acontece quando estão ali. Ela sorri, ainda perdida na questão.
Serão a finalidade? Ele sente que concluirá quando concluir e pronto, é assim que acontece. O eterno retorno sempre existe para quem pensa no eterno retorno. Ela sente o coração saltar no peito e não sabe para onde o levar. Ele, mais calmo, diz que o caminho não depende da velocidade dos passos, talvez da segurança entre cada um deles. A garota busca na memória algum momento anterior para explicar o agora, não encontra. Decide se levantar, ir embora, mas ainda vacila por acreditar que o abismo só parece fundo em perspectiva.
Ele a segura pela mão e conduz seus passos pelas pedras portuguesas. Ela pensa agora que a certeza, essa sim, virá com o tempo.
Serão a finalidade? Ele sente que concluirá quando concluir e pronto, é assim que acontece. O eterno retorno sempre existe para quem pensa no eterno retorno. Ela sente o coração saltar no peito e não sabe para onde o levar. Ele, mais calmo, diz que o caminho não depende da velocidade dos passos, talvez da segurança entre cada um deles. A garota busca na memória algum momento anterior para explicar o agora, não encontra. Decide se levantar, ir embora, mas ainda vacila por acreditar que o abismo só parece fundo em perspectiva.
Ele a segura pela mão e conduz seus passos pelas pedras portuguesas. Ela pensa agora que a certeza, essa sim, virá com o tempo.
terça-feira, fevereiro 06, 2007
domingo, fevereiro 04, 2007
Sobre Bingos, cores e dias que virão.
Ela aparece sempre quando penso, ela diz, ela faz. Não nega quando peço com jeitinho e também aceita quando invento uma loucura. Seja dançar em um bar imundo ou atravessar um Bingo colorido naquela noite estranha molhada de Martini. Ela faz e ainda fala baixinho, com sua entonação de quem descobriu aquele verdadeiro charme, naturalmente. Seus segredos não interessam a ninguém, ela garante.
- Diz agora você alguma coisa.
- Não digo, não existe isso de ‘diz agora você alguma coisa’.
Sabe exatamente o que quer dizer e na hora em que quer dizer. Tudo parece corrido, necessário e acontece com a velocidade que tem que acontecer. Seja em histórias sobre um estomago que para de funcionar ou sobre frutas e músicas insuportáveis de uma cidade em que ela atravessava de bicicleta e habitava um hotel cor-de-rosa. Eu escuto e deixo correr o gravador enquanto fotografo seus olhos que marejados dessa cereja encharcada em líquido branco, parecem ter outra beleza agora, finalmente consigo atravessar a primeira ponte de seu rosto. Do outro lado existe um lugar novo que ainda não sei onde posso pisar.
- Por que ela merece essa flor? Eu pergunto.
- Porque ela aceitou estar aqui com você. Responde a sábia menina que vende os marcadores de livros. Apesar de acertar em cheio a resposta, para a cena do nosso teatro o ideal mesmo seria um ‘porque ela é linda’, mas a vida sempre me surpreende com as respostas verdadeiras quando procuro esconde-las de alguma forma, não adianta.
Assim seguimos caminhando, encontrando gente, comprando chicletes e além de tudo guardando a certeza que o final não é aqui, algo precisa continuar, e vai. Só esperar pelos dias de amanhã. Eles virão.
- Diz agora você alguma coisa.
- Não digo, não existe isso de ‘diz agora você alguma coisa’.
Sabe exatamente o que quer dizer e na hora em que quer dizer. Tudo parece corrido, necessário e acontece com a velocidade que tem que acontecer. Seja em histórias sobre um estomago que para de funcionar ou sobre frutas e músicas insuportáveis de uma cidade em que ela atravessava de bicicleta e habitava um hotel cor-de-rosa. Eu escuto e deixo correr o gravador enquanto fotografo seus olhos que marejados dessa cereja encharcada em líquido branco, parecem ter outra beleza agora, finalmente consigo atravessar a primeira ponte de seu rosto. Do outro lado existe um lugar novo que ainda não sei onde posso pisar.
- Por que ela merece essa flor? Eu pergunto.
- Porque ela aceitou estar aqui com você. Responde a sábia menina que vende os marcadores de livros. Apesar de acertar em cheio a resposta, para a cena do nosso teatro o ideal mesmo seria um ‘porque ela é linda’, mas a vida sempre me surpreende com as respostas verdadeiras quando procuro esconde-las de alguma forma, não adianta.
Assim seguimos caminhando, encontrando gente, comprando chicletes e além de tudo guardando a certeza que o final não é aqui, algo precisa continuar, e vai. Só esperar pelos dias de amanhã. Eles virão.
sábado, fevereiro 03, 2007
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
That damp and lonely thursday years ago.
I said let's all meet up in the year 2000.
Won't it be strange when we're all fully grown.
Be there at 2 o'clock by the fountain down the road.
I never knew that you'd get married.
I would be living down here on my own on
that damp and lonely Thursday years ago.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Farinha dos cereais depois de se tirar o amido.
Pão de queijo para alimentar todo o estado de Minas Gerais ou batata-frita-com-gordura-hardcore? Já que é tão difícil escolher, ficamos com os dois. Mas você só vai comer isso no almoço? Foi idéia dele, ela diz com os olhos marejados de um sono que carrega o brilho naquela cor que eu gosto. Aquele lance da boca, ainda acho, aquele lance do cabelo, ainda acho. Só que agora encontro vários outros detalhes para observar de novos ângulos, com novas possibilidades de enquadramento. Olhos maiores que o mundo.
Me conta uma coisa nova, senta aqui do lado enquanto todos saíram na hora do café, cuidado com essas noites sem dormir, e principalmente, não presta muita atenção no que eu disser a esmo. Só leva a sério quando eu falo do teu corte de cabelo ou digo que beleza a gente pode ver no lado escuro, ou no claro, depende é da beleza, né?
Mas então, quer passear pela Pinheiro Machado procurando o que de belo a vida pode ter além do glúten? Ah, eu quero. É, eu quero. Vamos?
Me conta uma coisa nova, senta aqui do lado enquanto todos saíram na hora do café, cuidado com essas noites sem dormir, e principalmente, não presta muita atenção no que eu disser a esmo. Só leva a sério quando eu falo do teu corte de cabelo ou digo que beleza a gente pode ver no lado escuro, ou no claro, depende é da beleza, né?
Mas então, quer passear pela Pinheiro Machado procurando o que de belo a vida pode ter além do glúten? Ah, eu quero. É, eu quero. Vamos?
domingo, janeiro 28, 2007
Cores de qualquer cor ou balada desses dias
Ele caminha sob o sol com a mochila nas costas e as pessoas que cruzam seu caminho parecem ter sempre o mesmo rosto. Aumenta o volume do mp3 player na primeira música daquele disco que evitou ouvir por uns meses. É sempre um recomeço. Sempre.
Ela aparece de vestido verde e diz: - E aí? Vamos almoçar?!
Assim voltam ao mesmo ponto da rua das Laranjeiras e conversam, discutem, talvez imaginando novas possibilidades. Ela cortou o cabelo, ele elogia. Assim é o eterno retorno dos dois, que aliás, parece estar só começando. "Can't live for tomorrow / Tomorrow's much too long", eles cantam mentalmente. Simetria é só detalhe.
Ela aparece de vestido verde e diz: - E aí? Vamos almoçar?!
Assim voltam ao mesmo ponto da rua das Laranjeiras e conversam, discutem, talvez imaginando novas possibilidades. Ela cortou o cabelo, ele elogia. Assim é o eterno retorno dos dois, que aliás, parece estar só começando. "Can't live for tomorrow / Tomorrow's much too long", eles cantam mentalmente. Simetria é só detalhe.
sábado, janeiro 27, 2007
Só deixando clara a diferença entre ela e ele
Nico: "Todo mundo no Velvet era muito egomaníaco. Todo mundo queria ser a estrela. Quer dizer, Lou queria ser a estrela - claro que ele sempre foi - mas todos os jornais vinham até mim o tempo todo. Eu sempre quis cantar "I'm waiting for the man", mas Lou não deixava. Lou era o chefe e era muito mandão. Você conhece Lou? O que você acha dele - sarcástico? É porque ele toma muitas pílulas - a combinação de todas as pílulas que ele toma... Ele é muito rápido, inacreditavelmente rápido. Sou muito lenta."
quarta-feira, janeiro 24, 2007
poesia-cotidiana-calçada-botafogo
- Essas mulé rica não quer mais homi pra fudê não, agora elas compra um cachorro e bota o bicho pra pagá boquete pra elas. Aí já viu né, é aquela putaria da porra...
segunda-feira, janeiro 22, 2007
poesia-cotidiana-baixo-maracanã
- É a lei da oferta e procura: espermatozóide é barato, óvulo é caro. Ou seja, tem que selecionar.
domingo, janeiro 21, 2007
Viva Las Vegas
Ele entra e o lugar parece brilhar com todas as luzes que consegue. Amarelo, azul e vermelho confundindo a retina com o preto das paredes. A música é tão antiga que soa engraçado que aqui, epicentro do furacão, alguém ainda toque isso. Todos parecem gostar e ele não quer pensar tão diferente dos outros essa noite.
O vestido dela é lindo, o papo é agradável, mas ele sabe que o caçador que a garota precisa é outro, não ele. Se conforma que essa noite ela ainda não possa ser sua e vai buscar outra dose de veneno qualquer no bar. Bebe mais, mais e mais. Até perder o que era razão e deixar que a música que agora toca, pegue-o pela mão e arraste até a pista. Aceitou a noite e deixou ser, parecer, estar, perder.
A menina acaba indo embora com seu caçador de barriga cheia. "Isso ainda tem volta, anota aí", ele pensa e talvez tenha até dito a alguém. Do meio de sua cólera da derrota na batalha surge a mulher que mudará sua noite. Conversam sobre as diferenças Rio-e-São-Paulo e todo o blábláblá ponte aérea. Ela resolve tomar uma atitude e carrega o nosso garoto pelo jardim escondido atrás do concreto da Rua Augusta.
Lá existem corredeiras, ele diz.
O vestido dela é lindo, o papo é agradável, mas ele sabe que o caçador que a garota precisa é outro, não ele. Se conforma que essa noite ela ainda não possa ser sua e vai buscar outra dose de veneno qualquer no bar. Bebe mais, mais e mais. Até perder o que era razão e deixar que a música que agora toca, pegue-o pela mão e arraste até a pista. Aceitou a noite e deixou ser, parecer, estar, perder.
A menina acaba indo embora com seu caçador de barriga cheia. "Isso ainda tem volta, anota aí", ele pensa e talvez tenha até dito a alguém. Do meio de sua cólera da derrota na batalha surge a mulher que mudará sua noite. Conversam sobre as diferenças Rio-e-São-Paulo e todo o blábláblá ponte aérea. Ela resolve tomar uma atitude e carrega o nosso garoto pelo jardim escondido atrás do concreto da Rua Augusta.
Lá existem corredeiras, ele diz.
sexta-feira, janeiro 19, 2007
Signs and Symbols
Virgem é um Signo de Terra e Aquário é um Signo de Ar.
"Mas nem por isso ficaremos parados com a cabeça nas nuvens e os pés no chão."
"Mas nem por isso ficaremos parados com a cabeça nas nuvens e os pés no chão."
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Deixa o verão pra mais tarde
Na janela enquanto penso em John Lennon escuto a levada síncope da frase 'considere toda hostilidade que há da porta pra lá'. Até que faz bastante sentido, sempre fez. Hoje pensei muito bem, considerei todas as possibilidades da porta pra lá. Acho que desse lado de cá alguma coisa importante deve mudar. Existe um espaço vazio aqui dentro, um espaço dentro de mim e no lugar.
Esse espaço é de alguém. Alguém é você. Você. Alguém, é só você, o que já é muito. Só você, pronto, eu disse. E tenho dito.
Esse espaço é de alguém. Alguém é você. Você. Alguém, é só você, o que já é muito. Só você, pronto, eu disse. E tenho dito.
terça-feira, janeiro 16, 2007
Diálogos paulistas
Ele: - Ta pronta?
Ela: - Com amor é mais caro.
Ele: - Olha pra mim, quero ver se você ta pronta mesmo.
Ela: - Ruborizei.
Ela: - Com amor é mais caro.
Ele: - Olha pra mim, quero ver se você ta pronta mesmo.
Ela: - Ruborizei.
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