terça-feira, março 03, 2015

mês três

o que eu quero não existe, acabou, caducou ou foi embora.

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

depois vivo

ela partiu e não deixou nada escrito. foi e tudo parece normal, como deveria, não fosse a sensação de que o abandono de qualquer coisa importante é a pior forma de matar a esperança.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

não existe língua que defina exatamente o desencontro completo, o que dilacera, o que falta dizer, o que falta entender, a caldeira de tudo o que não se simplifica. não existe resumo para o que é tanto.

tanto é sofrer quando nenhuma alternativa existe.

tanto é gozar quando nenhuma alternativa importa.

tanto é tanta coisa mais que pouco.

tanto é pouca coisa menos que tudo.

tanto é não deixar de acreditar.

segunda-feira, janeiro 26, 2015

being around

quando todos os motivos pareciam não justificados, quando a revisão dos detalhes que desencaixaram da história já perdeu a razão de existir (tudo que não confronta não existe), ele estava enfim confortável com o vazio, com o despir da alma que abriu as portas para o roçado de um caminho estranho e novo, elaborado em vielas que construíam pirâmides de certezas, tudo o que vestia era uma camisa preta e a coragem de um ser humano mais forte.

ela dançava sozinha, cabelo recém-cortado e sorriso que não mostrava nenhuma mudança que poderia ser anunciada em conversas rasteiras. estava mais madura, mais calma, estava tentando deixar um caminhão de lado e viver o que poderia parecer mais sincero. queria que fosse mais simples sem saber que o mais simples é realizar o que quer. mas ela já aceitava duvidar. usava vestido, tênis e tudo o que já sabia que ele gostaria de ver.

e eles quiseram chegar perto. estar por perto. precisavam não sofrer mais com a necessidade de uma despedida ou o não entendimento de uma paixão. existia uma força tão necessária que os aproximava que nem perceberam que mais uma vez conversavam. ele sorria e contava histórias, ela suspirava e conseguia colocar suas tiradas entre pausas. coisas que só os dois poderiam fazer, coisas que os dois mereciam muito viver. e quando tudo começa de novo é sempre a chance de ficar por perto mais tempo, sem saber como o imediato pode não terminar.

esperança é sempre apostar.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

acreditar

a vida (ou o outro nome: destino) não pode me roubar a chance de ver a fortaleza ruindo, o acidente necessário, a chuva de surpresa em um recado rápido como a madrugada, algo nascido da epifania mais forte que um ataque cardíaco, a certeza que escreve "eu já não me controlo". não conseguir lutar é parte de toda grande história. se a sugestão é a força do deus da vontade, não existe tempo que não possibilite o crescer de uma árvore gigantesca, com ramos de sentimentos que não estão catalogados em situações óbvias, em dias em que o pensamento se perde em segundos de distância do novo, cheio de suas possíveis alegrias longínquas, e nem toda a força da razão pode proteger do encontro. vai tocar o yankee hotel foxtrot muito alto. alto pra nos acordar, alto pra acordar os vizinhos, alto pra dizer que a felicidade um dia acontece, como os ruídos que engolem a frase then i fell asleep and the city kept blinking, como o próprio desejo de existir.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

oráculo

quando as cartas são redistribuídas, a narrativa antecipada estabelece cinco símbolos do que é necessário para que eles existam. passos que a vida precisa dar naturalmente, completando um ciclo de encontro e dificuldade, deixando que a paixão aconteça pela coragem, que o olhar natural dure, que as descobertas sejam inteiras, que o novo coma o passado e ela possa acordar ouvindo um disco que ele escolheu, e os detalhes do café, da parede, do cigarro, das plantas e livros coloquem pra fora uma história esplêndida, projetada no inconsciente e vivida na prática loucura dos passionais, na respiração que ela não controla, cheia de suspiros, quebras de padrão do corpo para resumir o ridículo que seria não tentar contar essa história toda, cheia de milagres e vontade de eternizar cada pequeno detalhe, os olhos nos olhos, a mão, o ombro, as bolinhas no vestido e os beijos descompassados.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

o sentido da vida

o ângela rô rô 1979, o contrabaixo que vendi em 2008, seu cabelo, sorriso e tudo mais, o que imagino das pessoas desconhecidas, as histórias inventadas, o gramado da casa do lúcio no final da infância, as cores dos quatro primeiros discos do fellini, os que me amam sem nem ter entendido como funciona, a madrugada de um show do sean lennon pela tv, o carro na beira do rio, o bonde antes da festa da glória, seu cheiro em mim, o beijo da minha tia antes da escola, minha mãe dando comida ao menino na rodoviária do tietê, minha irmã me jogando na brasa, o hospital na virada para 2009, a caixa de fitas vhs, as tardes de música, as madrugadas com o samba amanhecendo, o amor entendido, uma conversa sincera com um amigo sincero, os que esqueceram que já fomos amigos, a solidão do meu apartamento em botafogo, o sonho e o café, o que sinto quando acho que posso qualquer coisa, a cumplicidade, as qualidades dos outros, tudo que não entendo por saber que só narro o meu lado da história, são paulo anoitecendo, itaperuna pela janela, o aterro do flamengo em 2004, os segredos que permanecem, a dúvida que não precisou se confirmar, o bar pescador, o bairro peixoto, o apartamento no térreo, a tristeza em natal, a reflexão no natal, a flor na festa de casamento, o telefone fixo na madrugada, o almoço no amendoeira, indo no carro com um casal estranho para o show dos mutantes sem a rita lee, o amigo que me ligou por estar triste e sozinho em outra cidade, a van que tocava uma música brega voltando de niterói, o beijo que aconteceu e era impossível, todos os impossíveis, na verdade, o tempo que amadurece e transforma, o jeff buckley cantando too young to hold on and too old to just break free and run, você no taxi pela madrugada do rio, o sexo, a vontade, os desejos, algumas músicas que escrevi e as dos outros, sempre melhores, o meu choro com as imagens do mauricio pereira dentro de uma canção honesta, música serve pra isso, tocar guitarra sem precisar cantar, o amigo que aprendeu contrabaixo comigo e o que me ensinou violão, as tardes longas na casa dos bussade, a praia no lugar mais feio do mundo, tudo o que sofri, tudo o que amei, a loucura lá no fim de niterói, o 455 que voltou da bunker, os amigos bebendo no camarim do placebo, as meninas do exame, o primeiro beijo, a felicidade no que se concretiza, o sonho vívido, o agora, os retornos e tudo o que ainda pode acontecer. 

segunda-feira, dezembro 08, 2014

dezembro

ficar em casa
jogar e perder
o lado B de ziggy stardust
são paulo à noite
o mundo e você
servem pra me ensinar
mas eu nunca vou aprender

(alvin l)

domingo, novembro 30, 2014

2013

o período natal/réveillon do ano passado me deixou tão comovido-embriagado que cuspi 22 haicais. salpiquei alguns em músicas, outros guardei só pra mim.

sábado, novembro 29, 2014

semana

quando os lugares estão para o descobrimento e o possível é uma grande folha em branco, quando você se pergunta se o destino te escreve ou o sopro de sonho embaça o vidro, como o cigarro inesperado que ainda vai acontecer, divido com calma e felicidade, quando o coração pergunta o caminho e rabisca uma lista sentimental de desejos, quando ainda existe um fio de dúvida e a história longa parece ser a promessa de que a vida é gentil com os que caíram no vão dos desatentos, outra semana especial existe como um prêmio, com seus poderes de síntese e premonição. que o impossível seja breve, que o acaso fique louco.

terça-feira, setembro 23, 2014

maturare

o complexo dos anos, a teia de fios sensíveis, a ante-sala do inconsciente, tudo que não é possível organizar em caixas de supermercado, em arquiteturas de informação ou listas de dez dicas, tudo que precisamos enfrentar para não sucumbir ao caos. a consciência dos desvios de conduta é a liberdade para o roçado de um novo caminho, um pouco mais justo, um pouco mais vivo.  

sexta-feira, agosto 29, 2014

#5

só me arrependo do que eu disse.
o que eu não disse até que valeu a pena.

quinta-feira, agosto 28, 2014

#4

a rede social oferece uma caixa de texto. o que leva uma pessoa a escrever em um guardanapo que vira foto (que vira post / que vira livro)? e depois ainda ensinam que mcluhan morreu.

#3

com a guarida de pais abastados qualquer projeto pessoal é uma escolha divina.

segunda-feira, agosto 25, 2014

#2

glorificar o passado é terceirizar a inércia e a preguiça.

sábado, agosto 23, 2014

#1

amadurecer é cometer os mesmos erros de antes com a consciência necessária para aproveitá-los.

quarta-feira, agosto 20, 2014

501

a paciência não conta muita coisa quando tudo está pronto para acontecer. o homem envelhece esperando o instante absurdo, o lapso, o erro ridículo que o libertará do querer. eu já quis tanta coisa que foi coisa mesmo e quis muito mais que não passou de duas horas. um dia todo mundo começa o mês te achando um babaca e no outro você é a insônia. o seu querer é projetar. o querer alheio é o acidente necessário para atos de qualquer natureza. no encaixe dos fatos quem afirma é o jogador, mas quem muda o jogo é a carta. e a saudade dos acasos é de uma amargura que eu nem sei te dizer. 

sexta-feira, julho 25, 2014

logo eu

que não me vendo. contando os passados, o rádio do vizinho, miudezas desagradáveis da vida quando estaciona, querendo um copo de bar com diana caçadora, a marini, que segundo conta a internet não é só heroína em biblioteca pública, como também nome de travesti, olha só que surpresa, se eu estivesse bêbado provavelmente dormiria com a notícia, e se tivesse tempo talvez deixasse pra amanhã essa certeza que pouco importa qualquer coisa. você ou qualquer um. marco zero do meu tédio e desgraça dos desavisados. não se assuste que não vai doer nada. 

terça-feira, julho 08, 2014

tempo

quando a memória é um erro, o passado é a entidade da vergonha. quando a lembrança é de acertos ocasionais e fortuitos, o passado é o lugar mais confortável, o melhor abraço no caminho, que prende, emociona e conforta. agora gosto de olhar os fios brancos da minha barba, que nascem do mesmo jeito, como promessas de presente para mais fios e lembranças. também me admira observar meu cabelo crescendo com as marcas de tantos cortes de três décadas, estabelecendo seu caminho em voltas retorcidas, espessura e espaço útil dizendo que existe uma história, cheia de fragilidade e aprendizado. e o cabelo cresce todo dia, como os dias renovam o tempo, e nenhum deles esconde os desvios ou mente a história de uma vida cansada de passados. futuros e acasos, eu ainda acredito. papo de perito. 

segunda-feira, julho 07, 2014

rede social

o tempo pra pensar não volta. nem os noventa minutos do documentário. os passos que não existiram até a padaria, o almoço de uma hora com o amigo desaparecido, o vento na janela do ônibus em uma terça-feira na boca do aterro do flamengo não volta. o correr de uma tela azul e branca come um pedaço por vez de cada coisa que pareceria tédio, tempo perdido, e vai comendo mais do que você não percebe, seu ego, entre vídeos de gatos e opiniões que não importam, a vida continua andando e perdendo um pouco de cada coisa antiga, o suspiro, a dúvida, a falta, o desperdício vira desperdício. troca-se a surpresa de algo que emocione pelo mesmo eterno de uma caminhada entre fotos diárias de atividades alheias, o falso contato, o outro lado presente, o amigo invisível é coletivo, atividade reconhecida e amplamente divulgada, o medo da vida venceu. e poucas alternativas nos lembram que caminhar sozinho é uma escolha atual, mesmo que ironicamente seja a única experiência realmente pratica da vida. que exista respiração para além desse bololô de cartas de náufragos, de carência e ódio. que exista, enfim, algo que nos justifique.