segunda-feira, janeiro 05, 2015

oráculo

quando as cartas são redistribuídas, a narrativa antecipada estabelece cinco símbolos do que é necessário para que eles existam. passos que a vida precisa dar naturalmente, completando um ciclo de encontro e dificuldade, deixando que a paixão aconteça pela coragem, que o olhar natural dure, que as descobertas sejam inteiras, que o novo coma o passado e ela possa acordar ouvindo um disco que ele escolheu, e os detalhes do café, da parede, do cigarro, das plantas e livros coloquem pra fora uma história esplêndida, projetada no inconsciente e vivida na prática loucura dos passionais, na respiração que ela não controla, cheia de suspiros, quebras de padrão do corpo para resumir o ridículo que seria não tentar contar essa história toda, cheia de milagres e vontade de eternizar cada pequeno detalhe, os olhos nos olhos, a mão, o ombro, as bolinhas no vestido e os beijos descompassados.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

o sentido da vida

o ângela rô rô 1979, o contrabaixo que vendi em 2008, seu cabelo, sorriso e tudo mais, o que imagino das pessoas desconhecidas, as histórias inventadas, o gramado da casa do lúcio no final da infância, as cores dos quatro primeiros discos do fellini, os que me amam sem nem ter entendido como funciona, a madrugada de um show do sean lennon pela tv, o carro na beira do rio, o bonde antes da festa da glória, seu cheiro em mim, o beijo da minha tia antes da escola, minha mãe dando comida ao menino na rodoviária do tietê, minha irmã me jogando na brasa, o hospital na virada para 2009, a caixa de fitas vhs, as tardes de música, as madrugadas com o samba amanhecendo, o amor entendido, uma conversa sincera com um amigo sincero, os que esqueceram que já fomos amigos, a solidão do meu apartamento em botafogo, o sonho e o café, o que sinto quando acho que posso qualquer coisa, a cumplicidade, as qualidades dos outros, tudo que não entendo por saber que só narro o meu lado da história, são paulo anoitecendo, itaperuna pela janela, o aterro do flamengo em 2004, os segredos que permanecem, a dúvida que não precisou se confirmar, o bar pescador, o bairro peixoto, o apartamento no térreo, a tristeza em natal, a reflexão no natal, a flor na festa de casamento, o telefone fixo na madrugada, o almoço no amendoeira, indo no carro com um casal estranho para o show dos mutantes sem a rita lee, o amigo que me ligou por estar triste e sozinho em outra cidade, a van que tocava uma música brega voltando de niterói, o beijo que aconteceu e era impossível, todos os impossíveis, na verdade, o tempo que amadurece e transforma, o jeff buckley cantando too young to hold on and too old to just break free and run, você no taxi pela madrugada do rio, o sexo, a vontade, os desejos, algumas músicas que escrevi e as dos outros, sempre melhores, o meu choro com as imagens do mauricio pereira dentro de uma canção honesta, música serve pra isso, tocar guitarra sem precisar cantar, o amigo que aprendeu contrabaixo comigo e o que me ensinou violão, as tardes longas na casa dos bussade, a praia no lugar mais feio do mundo, tudo o que sofri, tudo o que amei, a loucura lá no fim de niterói, o 455 que voltou da bunker, os amigos bebendo no camarim do placebo, as meninas do exame, o primeiro beijo, a felicidade no que se concretiza, o sonho vívido, o agora, os retornos e tudo o que ainda pode acontecer. 

segunda-feira, dezembro 08, 2014

dezembro

ficar em casa
jogar e perder
o lado B de ziggy stardust
são paulo à noite
o mundo e você
servem pra me ensinar
mas eu nunca vou aprender

(alvin l)

domingo, novembro 30, 2014

2013

o período natal/réveillon do ano passado me deixou tão comovido-embriagado que cuspi 22 haicais. salpiquei alguns em músicas, outros guardei só pra mim.

sábado, novembro 29, 2014

semana

quando os lugares estão para o descobrimento e o possível é uma grande folha em branco, quando você se pergunta se o destino te escreve ou o sopro de sonho embaça o vidro, como o cigarro inesperado que ainda vai acontecer, divido com calma e felicidade, quando o coração pergunta o caminho e rabisca uma lista sentimental de desejos, quando ainda existe um fio de dúvida e a história longa parece ser a promessa de que a vida é gentil com os que caíram no vão dos desatentos, outra semana especial existe como um prêmio, com seus poderes de síntese e premonição. que o impossível seja breve, que o acaso fique louco.

terça-feira, setembro 23, 2014

maturare

o complexo dos anos, a teia de fios sensíveis, a ante-sala do inconsciente, tudo que não é possível organizar em caixas de supermercado, em arquiteturas de informação ou listas de dez dicas, tudo que precisamos enfrentar para não sucumbir ao caos. a consciência dos desvios de conduta é a liberdade para o roçado de um novo caminho, um pouco mais justo, um pouco mais vivo.  

sexta-feira, agosto 29, 2014

#5

só me arrependo do que eu disse.
o que eu não disse até que valeu a pena.

quinta-feira, agosto 28, 2014

#4

a rede social oferece uma caixa de texto. o que leva uma pessoa a escrever em um guardanapo que vira foto (que vira post / que vira livro)? e depois ainda ensinam que mcluhan morreu.

#3

com a guarida de pais abastados qualquer projeto pessoal é uma escolha divina.

segunda-feira, agosto 25, 2014

#2

glorificar o passado é terceirizar a inércia e a preguiça.

sábado, agosto 23, 2014

#1

amadurecer é cometer os mesmos erros de antes com a consciência necessária para aproveitá-los.

quarta-feira, agosto 20, 2014

501

a paciência não conta muita coisa quando tudo está pronto para acontecer. o homem envelhece esperando o instante absurdo, o lapso, o erro ridículo que o libertará do querer. eu já quis tanta coisa que foi coisa mesmo e quis muito mais que não passou de duas horas. um dia todo mundo começa o mês te achando um babaca e no outro você é a insônia. o seu querer é projetar. o querer alheio é o acidente necessário para atos de qualquer natureza. no encaixe dos fatos quem afirma é o jogador, mas quem muda o jogo é a carta. e a saudade dos acasos é de uma amargura que eu nem sei te dizer. 

sexta-feira, julho 25, 2014

logo eu

que não me vendo. contando os passados, o rádio do vizinho, miudezas desagradáveis da vida quando estaciona, querendo um copo de bar com diana caçadora, a marini, que segundo conta a internet não é só heroína em biblioteca pública, como também nome de travesti, olha só que surpresa, se eu estivesse bêbado provavelmente dormiria com a notícia, e se tivesse tempo talvez deixasse pra amanhã essa certeza que pouco importa qualquer coisa. você ou qualquer um. marco zero do meu tédio e desgraça dos desavisados. não se assuste que não vai doer nada. 

terça-feira, julho 08, 2014

tempo

quando a memória é um erro, o passado é a entidade da vergonha. quando a lembrança é de acertos ocasionais e fortuitos, o passado é o lugar mais confortável, o melhor abraço no caminho, que prende, emociona e conforta. agora gosto de olhar os fios brancos da minha barba, que nascem do mesmo jeito, como promessas de presente para mais fios e lembranças. também me admira observar meu cabelo crescendo com as marcas de tantos cortes de três décadas, estabelecendo seu caminho em voltas retorcidas, espessura e espaço útil dizendo que existe uma história, cheia de fragilidade e aprendizado. e o cabelo cresce todo dia, como os dias renovam o tempo, e nenhum deles esconde os desvios ou mente a história de uma vida cansada de passados. futuros e acasos, eu ainda acredito. papo de perito. 

segunda-feira, julho 07, 2014

rede social

o tempo pra pensar não volta. nem os noventa minutos do documentário. os passos que não existiram até a padaria, o almoço de uma hora com o amigo desaparecido, o vento na janela do ônibus em uma terça-feira na boca do aterro do flamengo não volta. o correr de uma tela azul e branca come um pedaço por vez de cada coisa que pareceria tédio, tempo perdido, e vai comendo mais do que você não percebe, seu ego, entre vídeos de gatos e opiniões que não importam, a vida continua andando e perdendo um pouco de cada coisa antiga, o suspiro, a dúvida, a falta, o desperdício vira desperdício. troca-se a surpresa de algo que emocione pelo mesmo eterno de uma caminhada entre fotos diárias de atividades alheias, o falso contato, o outro lado presente, o amigo invisível é coletivo, atividade reconhecida e amplamente divulgada, o medo da vida venceu. e poucas alternativas nos lembram que caminhar sozinho é uma escolha atual, mesmo que ironicamente seja a única experiência realmente pratica da vida. que exista respiração para além desse bololô de cartas de náufragos, de carência e ódio. que exista, enfim, algo que nos justifique.

sexta-feira, junho 20, 2014

going the distance

existe um sonho que eu queria te contar. sonho de um dia que não aconteceria na vida real, em um shopping que eu não frequento, atordoado de sábados com crianças e jovens que começam o amor, que me faria um homem feliz durante os cinco segundos na escada rolante, pensando que de todos os momentos aqueles cinco segundos de mãos dadas foram os únicos que realmente vivi em tempo real, sem pensar no futuro ou cismar com o passado, essas entidades que adoram desabonar nossas possibilidades, sem querer nada mais que sentir que você seria a minha namorada numa tarde com um filme sobre amor e distância. você foi a minha namorada, a que eu esperei quando a vida me prometia mundos e fundos, e nos cinco segundos que continuam no loop do sonho de tempo e possibilidade você ainda é, como a sorte de existir um recorte da vida onde alguma coisa importou. e naquela sala de cinema ainda devem repetir os melhores momentos da escada rolante, já que não se fazem mais tantos filmes com a drew barrymore, e as pessoas de shopping precisam de incentivo para um dia sentir a mesma coisa entre comprar a pipoca e voltar pra casa. e ainda existe o prêmio de andar pelas ruas que circundam o grande shopping center com a sensação de que você está perto e pode aparecer de madrugada com mais cinco segundos de experiência de afeto, enquanto eu fumo um cigarro, enquanto faço o silêncio que nos confortará até mais cinco segundos. pequenos filmes da minha maior felicidade. de algo que não existe sem a dádiva de crescer e estar bem resolvido para transformar segundos em horas, horas em dias, dias em meses de vida.

sexta-feira, junho 06, 2014

vamos fazer nossos próprios filmes?

o fim de semana foi arrastado e ela nunca imaginaria vê-lo chegar no começo de uma madrugada de terça-feira, gritando na rua para a janela do segundo andar - olha aqui pra baixo, garota - e riu com os cadarços que ele pisava enquanto ocupava as mãos com chocolates e um violão para crianças.

- o que aconteceu?

- eu não disse que moraria aqui?

e jantaram a comida que ela fez no domingo como se o primeiro dia não fosse feito da pressa dos jovens. acabaram na cama. acabaram vivendo.

e é só o que se sabe.

segunda-feira, maio 26, 2014

o mínimo futuro

apareceu com um cartão que dizia "eu também não sei o que aconteceu" e perguntou se ele podia sair pra conversar e entender que ela ficava louca com toda a impaciência de fingir que não entendeu sobre o que falavam quando decidiu viajar.

foi embora depois de ouvi-lo dizer que se estivesse na mesma cidade pararia o avião.

foi embora depois que o ouviu contar a frase oculta no final do filme:

ninguém vai acreditar. não vamos deixar que isso atrapalhe. 

e o próximo minuto passou inteiro lembrando como se sentia quando imaginava acordar na casa dele, com a música que não esperava, com os lençóis que não conhecia, e sentir que podia acontecer por um ano, até que os filmes fossem assistidos e repetidos, até que acabasse a comida, até que fosse verdade.

foi embora com medo do que falariam.

não os outros.

e ele aceitou caminhar. e ouviu as histórias que ela contava com a voz mais grave do que quando a escuta falando dormindo. dentro do sonho. não disse nada até ter certeza de que não seria pela metade, que ela não sumiria no próximo minuto, deixando que os dois tivessem durado só alguns acasos, um encontro impossível e dois combinados, uma história tão grande que pode durar só o tempo de contar uma verdade. ele só ouviu.

e ela dizia: isso não pode acontecer. agora o que eu faço da vida? você vai me levar com essa roupa mesmo pra casa? e como eu volto depois? e como eu faço depois? e de qual jeito a gente foge de tudo que eu quero que você repita? e como eu conto que fiquei maluca?

e pensou no que diriam se a vida pudesse abrigar um novo casal, como se ainda existisse espaço, e aos amigos conseguissem dizer que aquilo virou uma coisa para lidar rapidamente, que existia e pronto, vamos saindo e não perguntando.

ela queria continuar. ele queria sentir. eles queriam sem conseguir.

e a música no instante anterior ao destino resumia.

i made it to a dinner date
my teardrops seasoned every plate

quarta-feira, março 12, 2014

sem rumo

pobre do homem que encontra o impossível.

os meses mostram que o caminho é circular e não existe salto sem coragem ou dor. vida sem ruptura. prazer sem risco. as tentações são filhas da carência e nada mais tênue que o imediato. o dia nos soterra de medos alheios como cantos de sereia, pedindo um pouco de alma aos que ainda andam em linha reta.

afortunado é o homem que caminha na corda bamba de suas dores.

no peso do tempo. na fissura da falta.

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

três sonhos

o passado retorna como futuro e tudo parece possível até o presente lembrar que sempre existe um empecilho. que uma coisa não deu certo por acaso e que o ruim é sempre ruim, o errado é sempre torto e o incompleto tá aí pra isso mesmo. nunca acontecer.

ela foi ao bar. foi ao cinema. e disse que não era bem assim em uma mensagem de celular rio-são paulo. passou por buenos aires, barcelona e londres. parecia apaixonada, mas a secretária eletrônica do inconsciente apagou o recado.

outro impossível é a casa com escada estreita levando ao gramado que deságua na rua sem saída da memória.