quinta-feira, agosto 28, 2014

#4

a rede social oferece uma caixa de texto. o que leva uma pessoa a escrever em um guardanapo que vira foto (que vira post / que vira livro)? e depois ainda ensinam que mcluhan morreu.

#3

com a guarida de pais abastados qualquer projeto pessoal é uma escolha divina.

segunda-feira, agosto 25, 2014

#2

glorificar o passado é terceirizar a inércia e a preguiça.

sábado, agosto 23, 2014

#1

amadurecer é cometer os mesmos erros de antes com a consciência necessária para aproveitá-los.

quarta-feira, agosto 20, 2014

501

a paciência não conta muita coisa quando tudo está pronto para acontecer. o homem envelhece esperando o instante absurdo, o lapso, o erro ridículo que o libertará do querer. eu já quis tanta coisa que foi coisa mesmo e quis muito mais que não passou de duas horas. um dia todo mundo começa o mês te achando um babaca e no outro você é a insônia. o seu querer é projetar. o querer alheio é o acidente necessário para atos de qualquer natureza. no encaixe dos fatos quem afirma é o jogador, mas quem muda o jogo é a carta. e a saudade dos acasos é de uma amargura que eu nem sei te dizer. 

sexta-feira, julho 25, 2014

logo eu

que não me vendo. contando os passados, o rádio do vizinho, miudezas desagradáveis da vida quando estaciona, querendo um copo de bar com diana caçadora, a marini, que segundo conta a internet não é só heroína em biblioteca pública, como também nome de travesti, olha só que surpresa, se eu estivesse bêbado provavelmente dormiria com a notícia, e se tivesse tempo talvez deixasse pra amanhã essa certeza que pouco importa qualquer coisa. você ou qualquer um. marco zero do meu tédio e desgraça dos desavisados. não se assuste que não vai doer nada. 

terça-feira, julho 08, 2014

tempo

quando a memória é um erro, o passado é a entidade da vergonha. quando a lembrança é de acertos ocasionais e fortuitos, o passado é o lugar mais confortável, o melhor abraço no caminho, que prende, emociona e conforta. agora gosto de olhar os fios brancos da minha barba, que nascem do mesmo jeito, como promessas de presente para mais fios e lembranças. também me admira observar meu cabelo crescendo com as marcas de tantos cortes de três décadas, estabelecendo seu caminho em voltas retorcidas, espessura e espaço útil dizendo que existe uma história, cheia de fragilidade e aprendizado. e o cabelo cresce todo dia, como os dias renovam o tempo, e nenhum deles esconde os desvios ou mente a história de uma vida cansada de passados. futuros e acasos, eu ainda acredito. papo de perito. 

segunda-feira, julho 07, 2014

rede social

o tempo pra pensar não volta. nem os noventa minutos do documentário. os passos que não existiram até a padaria, o almoço de uma hora com o amigo desaparecido, o vento na janela do ônibus em uma terça-feira na boca do aterro do flamengo não volta. o correr de uma tela azul e branca come um pedaço por vez de cada coisa que pareceria tédio, tempo perdido, e vai comendo mais do que você não percebe, seu ego, entre vídeos de gatos e opiniões que não importam, a vida continua andando e perdendo um pouco de cada coisa antiga, o suspiro, a dúvida, a falta, o desperdício vira desperdício. troca-se a surpresa de algo que emocione pelo mesmo eterno de uma caminhada entre fotos diárias de atividades alheias, o falso contato, o outro lado presente, o amigo invisível é coletivo, atividade reconhecida e amplamente divulgada, o medo da vida venceu. e poucas alternativas nos lembram que caminhar sozinho é uma escolha atual, mesmo que ironicamente seja a única experiência realmente pratica da vida. que exista respiração para além desse bololô de cartas de náufragos, de carência e ódio. que exista, enfim, algo que nos justifique.

sexta-feira, junho 20, 2014

going the distance

existe um sonho que eu queria te contar. sonho de um dia que não aconteceria na vida real, em um shopping que eu não frequento, atordoado de sábados com crianças e jovens que começam o amor, que me faria um homem feliz durante os cinco segundos na escada rolante, pensando que de todos os momentos aqueles cinco segundos de mãos dadas foram os únicos que realmente vivi em tempo real, sem pensar no futuro ou cismar com o passado, essas entidades que adoram desabonar nossas possibilidades, sem querer nada mais que sentir que você seria a minha namorada numa tarde com um filme sobre amor e distância. você foi a minha namorada, a que eu esperei quando a vida me prometia mundos e fundos, e nos cinco segundos que continuam no loop do sonho de tempo e possibilidade você ainda é, como a sorte de existir um recorte da vida onde alguma coisa importou. e naquela sala de cinema ainda devem repetir os melhores momentos da escada rolante, já que não se fazem mais tantos filmes com a drew barrymore, e as pessoas de shopping precisam de incentivo para um dia sentir a mesma coisa entre comprar a pipoca e voltar pra casa. e ainda existe o prêmio de andar pelas ruas que circundam o grande shopping center com a sensação de que você está perto e pode aparecer de madrugada com mais cinco segundos de experiência de afeto, enquanto eu fumo um cigarro, enquanto faço o silêncio que nos confortará até mais cinco segundos. pequenos filmes da minha maior felicidade. de algo que não existe sem a dádiva de crescer e estar bem resolvido para transformar segundos em horas, horas em dias, dias em meses de vida.

sexta-feira, junho 06, 2014

vamos fazer nossos próprios filmes?

o fim de semana foi arrastado e ela nunca imaginaria vê-lo chegar no começo de uma madrugada de terça-feira, gritando na rua para a janela do segundo andar - olha aqui pra baixo, garota - e riu com os cadarços que ele pisava enquanto ocupava as mãos com chocolates e um violão para crianças.

- o que aconteceu?

- eu não disse que moraria aqui?

e jantaram a comida que ela fez no domingo como se o primeiro dia não fosse feito da pressa dos jovens. acabaram na cama. acabaram vivendo.

e é só o que se sabe.

segunda-feira, maio 26, 2014

o mínimo futuro

apareceu com um cartão que dizia "eu também não sei o que aconteceu" e perguntou se ele podia sair pra conversar e entender que ela ficava louca com toda a impaciência de fingir que não entendeu sobre o que falavam quando decidiu viajar.

foi embora depois de ouvi-lo dizer que se estivesse na mesma cidade pararia o avião.

foi embora depois que o ouviu contar a frase oculta no final do filme:

ninguém vai acreditar. não vamos deixar que isso atrapalhe. 

e o próximo minuto passou inteiro lembrando como se sentia quando imaginava acordar na casa dele, com a música que não esperava, com os lençóis que não conhecia, e sentir que podia acontecer por um ano, até que os filmes fossem assistidos e repetidos, até que acabasse a comida, até que fosse verdade.

foi embora com medo do que falariam.

não os outros.

e ele aceitou caminhar. e ouviu as histórias que ela contava com a voz mais grave do que quando a escuta falando dormindo. dentro do sonho. não disse nada até ter certeza de que não seria pela metade, que ela não sumiria no próximo minuto, deixando que os dois tivessem durado só alguns acasos, um encontro impossível e dois combinados, uma história tão grande que pode durar só o tempo de contar uma verdade. ele só ouviu.

e ela dizia: isso não pode acontecer. agora o que eu faço da vida? você vai me levar com essa roupa mesmo pra casa? e como eu volto depois? e como eu faço depois? e de qual jeito a gente foge de tudo que eu quero que você repita? e como eu conto que fiquei maluca?

e pensou no que diriam se a vida pudesse abrigar um novo casal, como se ainda existisse espaço, e aos amigos conseguissem dizer que aquilo virou uma coisa para lidar rapidamente, que existia e pronto, vamos saindo e não perguntando.

ela queria continuar. ele queria sentir. eles queriam sem conseguir.

e a música no instante anterior ao destino resumia.

i made it to a dinner date
my teardrops seasoned every plate

quarta-feira, março 12, 2014

sem rumo

pobre do homem que encontra o impossível.

os meses mostram que o caminho é circular e não existe salto sem coragem ou dor. vida sem ruptura. prazer sem risco. as tentações são filhas da carência e nada mais tênue que o imediato. o dia nos soterra de medos alheios como cantos de sereia, pedindo um pouco de alma aos que ainda andam em linha reta.

afortunado é o homem que caminha na corda bamba de suas dores.

no peso do tempo. na fissura da falta.

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

três sonhos

o passado retorna como futuro e tudo parece possível até o presente lembrar que sempre existe um empecilho. que uma coisa não deu certo por acaso e que o ruim é sempre ruim, o errado é sempre torto e o incompleto tá aí pra isso mesmo. nunca acontecer.

ela foi ao bar. foi ao cinema. e disse que não era bem assim em uma mensagem de celular rio-são paulo. passou por buenos aires, barcelona e londres. parecia apaixonada, mas a secretária eletrônica do inconsciente apagou o recado.

outro impossível é a casa com escada estreita levando ao gramado que deságua na rua sem saída da memória.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

#1

por dois dedos da sua prosa
a minha mão inteira
posa

natal

no mesmo lugar, sem missa ou telefonemas, ele ainda espera crescer.

quarta-feira, dezembro 18, 2013

it's a shame about ray

se a resposta fosse coberta de possibilidades, eles descobririam uma cidade para correr da chuva fina ou um arranha-céu que significasse o começo dessa pequena fábula incompleta de como a vontade é destino.

a mensagem que ela enviaria bêbada às 03:39 de uma quarta-feira diria:


- bebi e resolvi te escrever. será que estou ficando louca?

e ele mostraria o trator enterrado no passado esplêndido do bahia, o guioza, o abandono da rua javari, o contraste entre o vazio-terror do centro e o sorriso das senhoras do PASV, todas as coisas que recortou do passado para mostrar que nada é tão impossível, nem a imagem dos dois saindo da estação ana rosa com a sensação de que o instante poderia ser só um sintoma da coragem. ou de um grande começo de paixão.


ele queria correr o risco. e aguentou com os pés firmes a falta de todas essas memórias.


sem álcool. nem mensagens às 03:39.

quarta-feira, outubro 30, 2013

o seu silêncio é maior que qualquer não.

sexta-feira, outubro 18, 2013

the great escape

ele chegou nervoso, não acreditou que seria possível encontrá-la assim, sem uma grande impossibilidade, e enquanto pensava no barulho dos copos e pessoas que atravessavam o salão de chá, quis colocar o momento em alguma coleção pessoal de recomeços, de tanta alegria que o óbvio provocava.

ela chegou de vestido preto, não imaginou até os três primeiros passos na entrada que estavam criando alguma coisa juntos, uma troca de códigos secretos, não queria, tentava resistir e não elaborar algo que evidenciasse o encontro, não conseguia contar esse segredo nem à sua consciência.

- vou dizer o que pensei e se você achar muita maluquice eu posso pedir mil desculpas e fugir em cinco segundos.

ela riu e perguntou o que ele havia pensado.

- a gente toma esse chá correndo e foge lá pra casa e passa oito horas ouvindo música e falando sobre filmes, escolhemos filmes pra assistir também, e contamos histórias sobre esses filmes, coisas pequenas e importantes de nós que estão neles. ou nas músicas. podemos passar no supermercado e levar vinhos e qualquer outra coisa que você quiser comer.

- é. eu acho um bom plano.

quarta-feira, outubro 16, 2013

pequena ilusão

e poderíamos muito. em silêncio. dádiva de uma escolha suave e inviável na falta de compasso entre a linha da atração e o pragmatismo inútil.

foi o que a vida disse aos dois, que permaneceram calados esperando o momento em que o fim da música seria a pausa para o exercício do destemor.

acordo complexo já que ele perdera o hábito dos banhos frios (coragem encanada) e ela representava o infinito das possibilidades, que a rigor seria o nada. articular o sonho em um mundo que não dorme requer mãos para o artesanato. e coração preparado para desemaranhar cada fio de dificuldade até o inadiável exercício do desejo dos cúmplices.

segunda-feira, outubro 14, 2013

bula

A corrente bovarizante, que é de integrar o real no imaginário, o imaginário no real, se ramificará de maneira múltipla: o "eu" do autor e o "eu" do herói poderão se confundir e, finalmente, o romancista procurará continuamente transformar o real na lembrança, transformar a si mesmo por sua obra e na sua obra. Os romances burgueses, sob diversas formas, se tornam os tu e eu, tu leitor que sou eu autor, eu autor que sou tu, leitor, tu personagem de romance que sou eu, eu personagem de romance que sou tu, um jogo de perseguição, passos cruzados incessantes entre a vida e o sonho.

(edgar morin)