segunda-feira, maio 26, 2014

o mínimo futuro

apareceu com um cartão que dizia "eu também não sei o que aconteceu" e perguntou se ele podia sair pra conversar e entender que ela ficava louca com toda a impaciência de fingir que não entendeu sobre o que falavam quando decidiu viajar.

foi embora depois de ouvi-lo dizer que se estivesse na mesma cidade pararia o avião.

foi embora depois que o ouviu contar a frase oculta no final do filme:

ninguém vai acreditar. não vamos deixar que isso atrapalhe. 

e o próximo minuto passou inteiro lembrando como se sentia quando imaginava acordar na casa dele, com a música que não esperava, com os lençóis que não conhecia, e sentir que podia acontecer por um ano, até que os filmes fossem assistidos e repetidos, até que acabasse a comida, até que fosse verdade.

foi embora com medo do que falariam.

não os outros.

e ele aceitou caminhar. e ouviu as histórias que ela contava com a voz mais grave do que quando a escuta falando dormindo. dentro do sonho. não disse nada até ter certeza de que não seria pela metade, que ela não sumiria no próximo minuto, deixando que os dois tivessem durado só alguns acasos, um encontro impossível e dois combinados, uma história tão grande que pode durar só o tempo de contar uma verdade. ele só ouviu.

e ela dizia: isso não pode acontecer. agora o que eu faço da vida? você vai me levar com essa roupa mesmo pra casa? e como eu volto depois? e como eu faço depois? e de qual jeito a gente foge de tudo que eu quero que você repita? e como eu conto que fiquei maluca?

e pensou no que diriam se a vida pudesse abrigar um novo casal, como se ainda existisse espaço, e aos amigos conseguissem dizer que aquilo virou uma coisa para lidar rapidamente, que existia e pronto, vamos saindo e não perguntando.

ela queria continuar. ele queria sentir. eles queriam sem conseguir.

e a música no instante anterior ao destino resumia.

i made it to a dinner date
my teardrops seasoned every plate

quarta-feira, março 12, 2014

sem rumo

pobre do homem que encontra o impossível.

os meses mostram que o caminho é circular e não existe salto sem coragem ou dor. vida sem ruptura. prazer sem risco. as tentações são filhas da carência e nada mais tênue que o imediato. o dia nos soterra de medos alheios como cantos de sereia, pedindo um pouco de alma aos que ainda andam em linha reta.

afortunado é o homem que caminha na corda bamba de suas dores.

no peso do tempo. na fissura da falta.

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

três sonhos

o passado retorna como futuro e tudo parece possível até o presente lembrar que sempre existe um empecilho. que uma coisa não deu certo por acaso e que o ruim é sempre ruim, o errado é sempre torto e o incompleto tá aí pra isso mesmo. nunca acontecer.

ela foi ao bar. foi ao cinema. e disse que não era bem assim em uma mensagem de celular rio-são paulo. passou por buenos aires, barcelona e londres. parecia apaixonada, mas a secretária eletrônica do inconsciente apagou o recado.

outro impossível é a casa com escada estreita levando ao gramado que deságua na rua sem saída da memória.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

#1

por dois dedos da sua prosa
a minha mão inteira
posa

natal

no mesmo lugar, sem missa ou telefonemas, ele ainda espera crescer.

quarta-feira, dezembro 18, 2013

it's a shame about ray

se a resposta fosse coberta de possibilidades, eles descobririam uma cidade para correr da chuva fina ou um arranha-céu que significasse o começo dessa pequena fábula incompleta de como a vontade é destino.

a mensagem que ela enviaria bêbada às 03:39 de uma quarta-feira diria:


- bebi e resolvi te escrever. será que estou ficando louca?

e ele mostraria o trator enterrado no passado esplêndido do bahia, o guioza, o abandono da rua javari, o contraste entre o vazio-terror do centro e o sorriso das senhoras do PASV, todas as coisas que recortou do passado para mostrar que nada é tão impossível, nem a imagem dos dois saindo da estação ana rosa com a sensação de que o instante poderia ser só um sintoma da coragem. ou de um grande começo de paixão.


ele queria correr o risco. e aguentou com os pés firmes a falta de todas essas memórias.


sem álcool. nem mensagens às 03:39.

quarta-feira, outubro 30, 2013

o seu silêncio é maior que qualquer não.

sexta-feira, outubro 18, 2013

the great escape

ele chegou nervoso, não acreditou que seria possível encontrá-la assim, sem uma grande impossibilidade, e enquanto pensava no barulho dos copos e pessoas que atravessavam o salão de chá, quis colocar o momento em alguma coleção pessoal de recomeços, de tanta alegria que o óbvio provocava.

ela chegou de vestido preto, não imaginou até os três primeiros passos na entrada que estavam criando alguma coisa juntos, uma troca de códigos secretos, não queria, tentava resistir e não elaborar algo que evidenciasse o encontro, não conseguia contar esse segredo nem à sua consciência.

- vou dizer o que pensei e se você achar muita maluquice eu posso pedir mil desculpas e fugir em cinco segundos.

ela riu e perguntou o que ele havia pensado.

- a gente toma esse chá correndo e foge lá pra casa e passa oito horas ouvindo música e falando sobre filmes, escolhemos filmes pra assistir também, e contamos histórias sobre esses filmes, coisas pequenas e importantes de nós que estão neles. ou nas músicas. podemos passar no supermercado e levar vinhos e qualquer outra coisa que você quiser comer.

- é. eu acho um bom plano.

quarta-feira, outubro 16, 2013

pequena ilusão

e poderíamos muito. em silêncio. dádiva de uma escolha suave e inviável na falta de compasso entre a linha da atração e o pragmatismo inútil.

foi o que a vida disse aos dois, que permaneceram calados esperando o momento em que o fim da música seria a pausa para o exercício do destemor.

acordo complexo já que ele perdera o hábito dos banhos frios (coragem encanada) e ela representava o infinito das possibilidades, que a rigor seria o nada. articular o sonho em um mundo que não dorme requer mãos para o artesanato. e coração preparado para desemaranhar cada fio de dificuldade até o inadiável exercício do desejo dos cúmplices.

segunda-feira, outubro 14, 2013

bula

A corrente bovarizante, que é de integrar o real no imaginário, o imaginário no real, se ramificará de maneira múltipla: o "eu" do autor e o "eu" do herói poderão se confundir e, finalmente, o romancista procurará continuamente transformar o real na lembrança, transformar a si mesmo por sua obra e na sua obra. Os romances burgueses, sob diversas formas, se tornam os tu e eu, tu leitor que sou eu autor, eu autor que sou tu, leitor, tu personagem de romance que sou eu, eu personagem de romance que sou tu, um jogo de perseguição, passos cruzados incessantes entre a vida e o sonho.

(edgar morin)

quinta-feira, outubro 10, 2013

continue, por favor

mesmo realista ou trabalhando na frequência limite do inevitável, o sonho só existe para projetar o futuro. para tornar perfeito o minuto de desabafo onde a menina conta um pequeno pedaço da infância, como se regredisse ou esperasse o destino sem saber que alguma coisa vai chegar.

e presta atenção. observando os detalhes que cita aos poucos, com receio de cruzar os olhares e esclarecer a fagulha de interesse. deixar que a vergonha atravesse o muro e as coisas fiquem definidas.

estamos entendidos que existe um plano?

somos óbvios quando evitamos a coragem. e possíveis por encará-la como a única coisa que talvez no salve desses silêncios, dos pequenos medos, do caracol que reprime a vontade, que cobre o desejo.

no filme que continua, você pensa em conversar mais um pouco e aceita ser personagem desse pequeno começo: carinhoso, apaixonado e atento.

sexta-feira, outubro 04, 2013

no dia que ainda não existe você pode ter um minuto de desejo

aconteceu. um breve descuido e a conversa foi parar no suor frio de um futuro que parece com as bolinhas daquele vestido preto ou com a palpitação de uma viagem de ônibus pelo rasgo do interior do estado de minas gerais. ela desejou que ele estivesse de mãos vazias.

- eu sinto que a nossa conversa é um código.

ela disse, já não acreditando na possibilidade de superar essa situação imediatamente. ele parecia calmo e guardava todas as palavras para quando pudesse desejar.

a despedida foi melancólica, um beijo no rosto quente de quem (ela) realmente não se aguenta de coragem.

e ninguém acreditou quando alice pediu para descer do carro, correu as duas esquinas já passadas, só para dizer ao pé do ouvido: eu só posso te encontrar na quarta-feira, mas não aguento até amanhã. trate de resolver isso.

i knew she was gonna meet her connection
at her feet was a footloose man

(but if you try sometimes)

quinta-feira, setembro 19, 2013

noite

os canais de televisão costumavam encerrar a programação em determinado momento da madrugada. as barras coloridas indicavam que as saídas para a noite seriam dormir ou fugir. na rua, a cidade abraçava bares, bêbados e solitários, paria desajustados.

a madrugada perdeu seu povo com a programação ininterrupta. os bares não prolongam mais o sofrimento de seus trabalhadores e a rua só aceita o desabrigo de quem tem fome bíblica.

ainda apareceu a internet para lavar definitivamente das ruas as dores da alma. e criou nosso mundo de mortos de fome subjetiva trancados em caixotes de 30 metros quadrados.

quinta-feira, agosto 22, 2013

por agora

se fica assim
perdem os dois
por desprezo,
com razão

um sofre primeiro
o outro depois

o impossível
continua
sendo
o
barro
de
todo grande amor

quarta-feira, agosto 21, 2013

eu queria

poder contar a história inteira, a parte que ficou faltando e você desconhece, a verdade que não tive coragem de expor completamente, o melhor dia da minha vida, estávamos no shopping, lembra?

acredita?

eu não sou bom com a atividade de acertar, mas queria conseguir esclarecer.

eu queria conversar. falar, ouvir e ceder. me desculpar.

ter ainda tempo pra me arrepender.

eu quero você.

pelo menos pra ver se alguma coisa ainda dá pra consertar.

a gente pode tentar?

eu sempre quis você, só não consegui me preparar. ou resolver.

ser música com você nas ruas, praças, ou qualquer outro lugar em que eu consiga te merecer.

(tá, essa ideia eu peguei de você)

beijo

e vê se resolve me atender.

sexta-feira, agosto 16, 2013

o mundo é tão variado
tanta exclamação
que às vezes não se nota que é constante
que uma banalidade
gere uma canção gigante.

entre numa rádio e cante:
música serve pra isso.

(de maurício e abu)

terça-feira, agosto 13, 2013

américa #1

da noite onde os maestros tiram a sobra de som que identifica sua linguagem, ainda em fitas de rolo, das ruas mal iluminadas e calçadas tortas com as pedras esquecidas pela cidade, de lá é que se conta o tempo dos que não suportam a sarjeta irrestrita, o lixo pessoa física, com a banda sonora abafada e kitsch de bernard herrmann engolindo seus sonhos de uma vida menos ordinária.

os mesmos instintos que te afastam do perigo dizem que o marasmo é seu maior fracasso. e que não adianta bater os braços na borda da piscina do inconsciente. a briga já começa perdida.

tudo é opressão. todas as escolhas são.

e esse mundo desgraçado te observa com pena e desejo, querendo te encontrar depois do pisão na lama, da mancada de quinta-feira no pescoço da madrugada, quando o inferno não sair da cabeça, martelando que de nada adianta não ser feliz. é ineficaz como projeto de vida. e te obriga a aceitar o jogo, como os rasgos da parte de baixo do vestido, como o amanhã do sol que cospe recomeço no meio da sua cara.

seja presa. mas não seja nada.

menos tédio?

ela diz:

tomara.

segunda-feira, julho 22, 2013

campos

de óculos escuros
dentro da música
de 2005

quarta-feira, julho 03, 2013

sonho-tracklist #1

01 - campos

02 - eu não sei mais nada sobre você

03 - para gravar na sua secretária eletrônica

segunda-feira, junho 24, 2013

pro futuro

hoje o horóscopo me chamou de autista.

e do meu buraco só vejo os mesmos faróis, meus recortes de realidade para continuar sendo o projeto de indivíduo que minha mãe inventou quando resolveu me fazer gente. ela criou a coisa, eu só borrei os contornos. com a variedade de obsessões e desejos que consegui arrancar de cada pequena experiência sensível. dos pequenos coitos interrompidos do destino (ou chamem de desejos não realizados) pego o barro que vai montar o futuro. um remendo torto de sonho fora da validade e prazer de conquista de territórios inimigos. estou sempre contra o mundo e continuo sozinho.

e você aí, me olhando dos grandes círculos de seus óculos, não sabe como poderia ser o futuro.