quinta-feira, outubro 10, 2013

continue, por favor

mesmo realista ou trabalhando na frequência limite do inevitável, o sonho só existe para projetar o futuro. para tornar perfeito o minuto de desabafo onde a menina conta um pequeno pedaço da infância, como se regredisse ou esperasse o destino sem saber que alguma coisa vai chegar.

e presta atenção. observando os detalhes que cita aos poucos, com receio de cruzar os olhares e esclarecer a fagulha de interesse. deixar que a vergonha atravesse o muro e as coisas fiquem definidas.

estamos entendidos que existe um plano?

somos óbvios quando evitamos a coragem. e possíveis por encará-la como a única coisa que talvez no salve desses silêncios, dos pequenos medos, do caracol que reprime a vontade, que cobre o desejo.

no filme que continua, você pensa em conversar mais um pouco e aceita ser personagem desse pequeno começo: carinhoso, apaixonado e atento.

sexta-feira, outubro 04, 2013

no dia que ainda não existe você pode ter um minuto de desejo

aconteceu. um breve descuido e a conversa foi parar no suor frio de um futuro que parece com as bolinhas daquele vestido preto ou com a palpitação de uma viagem de ônibus pelo rasgo do interior do estado de minas gerais. ela desejou que ele estivesse de mãos vazias.

- eu sinto que a nossa conversa é um código.

ela disse, já não acreditando na possibilidade de superar essa situação imediatamente. ele parecia calmo e guardava todas as palavras para quando pudesse desejar.

a despedida foi melancólica, um beijo no rosto quente de quem (ela) realmente não se aguenta de coragem.

e ninguém acreditou quando alice pediu para descer do carro, correu as duas esquinas já passadas, só para dizer ao pé do ouvido: eu só posso te encontrar na quarta-feira, mas não aguento até amanhã. trate de resolver isso.

i knew she was gonna meet her connection
at her feet was a footloose man

(but if you try sometimes)

quinta-feira, setembro 19, 2013

noite

os canais de televisão costumavam encerrar a programação em determinado momento da madrugada. as barras coloridas indicavam que as saídas para a noite seriam dormir ou fugir. na rua, a cidade abraçava bares, bêbados e solitários, paria desajustados.

a madrugada perdeu seu povo com a programação ininterrupta. os bares não prolongam mais o sofrimento de seus trabalhadores e a rua só aceita o desabrigo de quem tem fome bíblica.

ainda apareceu a internet para lavar definitivamente das ruas as dores da alma. e criou nosso mundo de mortos de fome subjetiva trancados em caixotes de 30 metros quadrados.

quinta-feira, agosto 22, 2013

por agora

se fica assim
perdem os dois
por desprezo,
com razão

um sofre primeiro
o outro depois

o impossível
continua
sendo
o
barro
de
todo grande amor

quarta-feira, agosto 21, 2013

eu queria

poder contar a história inteira, a parte que ficou faltando e você desconhece, a verdade que não tive coragem de expor completamente, o melhor dia da minha vida, estávamos no shopping, lembra?

acredita?

eu não sou bom com a atividade de acertar, mas queria conseguir esclarecer.

eu queria conversar. falar, ouvir e ceder. me desculpar.

ter ainda tempo pra me arrepender.

eu quero você.

pelo menos pra ver se alguma coisa ainda dá pra consertar.

a gente pode tentar?

eu sempre quis você, só não consegui me preparar. ou resolver.

ser música com você nas ruas, praças, ou qualquer outro lugar em que eu consiga te merecer.

(tá, essa ideia eu peguei de você)

beijo

e vê se resolve me atender.

sexta-feira, agosto 16, 2013

o mundo é tão variado
tanta exclamação
que às vezes não se nota que é constante
que uma banalidade
gere uma canção gigante.

entre numa rádio e cante:
música serve pra isso.

(de maurício e abu)

terça-feira, agosto 13, 2013

américa #1

da noite onde os maestros tiram a sobra de som que identifica sua linguagem, ainda em fitas de rolo, das ruas mal iluminadas e calçadas tortas com as pedras esquecidas pela cidade, de lá é que se conta o tempo dos que não suportam a sarjeta irrestrita, o lixo pessoa física, com a banda sonora abafada e kitsch de bernard herrmann engolindo seus sonhos de uma vida menos ordinária.

os mesmos instintos que te afastam do perigo dizem que o marasmo é seu maior fracasso. e que não adianta bater os braços na borda da piscina do inconsciente. a briga já começa perdida.

tudo é opressão. todas as escolhas são.

e esse mundo desgraçado te observa com pena e desejo, querendo te encontrar depois do pisão na lama, da mancada de quinta-feira no pescoço da madrugada, quando o inferno não sair da cabeça, martelando que de nada adianta não ser feliz. é ineficaz como projeto de vida. e te obriga a aceitar o jogo, como os rasgos da parte de baixo do vestido, como o amanhã do sol que cospe recomeço no meio da sua cara.

seja presa. mas não seja nada.

menos tédio?

ela diz:

tomara.

segunda-feira, julho 22, 2013

campos

de óculos escuros
dentro da música
de 2005

quarta-feira, julho 03, 2013

sonho-tracklist #1

01 - campos

02 - eu não sei mais nada sobre você

03 - para gravar na sua secretária eletrônica

segunda-feira, junho 24, 2013

pro futuro

hoje o horóscopo me chamou de autista.

e do meu buraco só vejo os mesmos faróis, meus recortes de realidade para continuar sendo o projeto de indivíduo que minha mãe inventou quando resolveu me fazer gente. ela criou a coisa, eu só borrei os contornos. com a variedade de obsessões e desejos que consegui arrancar de cada pequena experiência sensível. dos pequenos coitos interrompidos do destino (ou chamem de desejos não realizados) pego o barro que vai montar o futuro. um remendo torto de sonho fora da validade e prazer de conquista de territórios inimigos. estou sempre contra o mundo e continuo sozinho.

e você aí, me olhando dos grandes círculos de seus óculos, não sabe como poderia ser o futuro.

domingo, maio 19, 2013

some nights

quinta-feira, maio 16, 2013

dos mandamentos universais de capinan

é impossível levar um barco sem temporais.

as coisas passando, eu quero é passar com elas.

segunda-feira, abril 15, 2013

o bloco da mudança voltou

vida é só esse eterno caminho até a próxima padaria, esquina, vizinho, quarto, sala, cortina, sofá e estante. quase três anos morando na rua sem fim, primeira casa de dois em um. aqui ainda não sei, não sinto, por pouco não me perco tentando voltar. toda transformação espacial apaga pedaços de passado e futuro e deixa pequenos objetos caídos do caminhão que nos trouxe até aqui.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

mente sã

manoel é o eterno lado esquerdo do cérebro engolindo o lado direito que na verdade já é o dono de tudo. ele queria saber resolver a vida do lado esquerdo, mas só o que existe é a calçada da direita. o simples fato de existir já é esquerdo e esse barulho todo que chamamos de vida é o grande segredo do quem sabe, ao qual chamamos de destino. quando o destino resolve não te amar é que se manifesta este dragão com cor de rotina. de dia-a-dia. que pena, manoel. pra você e seus dragões.

segunda-feira, janeiro 14, 2013

a ver

eu não sou um cara triste. nem velho, sábio ou perdido.

então não importa muito o que eu digo.

importa o que eu vejo. importa o que eu sinto.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

caminhão do fim das esperanças

não agendei, não esperava, não chamei. um dia tudo que era o que você mais precisa na vida vira tudo que não é mais seu. foi embora. derramou o caldo para uma coisa que parece a pior dor possível.

o enfrentamento.

então você percebe que só precisa sentir essa melancolia toda e deixar a vida machucar o suficiente. sofre menos quem deixa sofrer. ser sozinho é sentir que não se pode mais contar com o amor. nem contar com ninguém. o caminhão da mudança já levou o sonho e tudo vira um emaranhado de passado e dúvida. vira o enfrentamento da próxima curva, do resto da vida.

a tristeza me persegue no natal.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

o fim do mundo toda sexta-feira

o mundo acaba toda sexta-feira, vocês que ainda não perceberam isso.

quinta-feira, novembro 22, 2012

sozinha

com o cabelo preso, parecendo frágil, espera que o expediente acabe e que a fila ande logo.

pensa nas contas, lembra os recados, foge dos amigos no almoço e anota as tarefas em sua mão esquerda enquanto o cara da frente termina de passar o cartão no caixa.

sua vez, diz o velho do bigode. 

paga, olha uma última vez para o fundo - onde ele fotografa tudo em vinte e quatro quadros - e sai pela esquerda. 

saída esperada e destino, por enquanto, desconhecido.

quarta-feira, novembro 07, 2012

cartinha ou micro bilhete

certas coisas não são catalogadas, não entram em cartilhas ou nos conselhos de amigo, certas coisas não cabem em nada. fazer um inventário das cores que escorrem quando você respira, se movimenta ou toca um prato de omelete com brie já seria um objetivo justo, pra te mostrar que ainda existe salvação pro mundo, pra me provar que nenhum desencanto é infinito, pra cortar do tempo esse marasmo que asfixia qualquer outra coisa que não seja tédio e dor, esses dois amigos que temos em comum. queria conseguir guardar suas cores em um registro convincente, mesmo que pouco preciso, queria que você soubesse que elas derramam em mim o que meu meu corpo não consegue. queria suas cores em mim, passando pelos poros tudo que como com os olhos, tudo que não sei exatamente desejar.

sábado, novembro 03, 2012

manual de sobrevivência social

aos errados, perdidos, vagos, sufocados ou confusos, nos eventos de convívio sociocultural só lhes resta uma saída à altura de seu bom senso, a bebida. pular no álcool antes de se afogar no verbo alheio.